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Crônica

Avenida Paulista, 120

por Matheus Pichonelli publicado 08/12/2011 10h21, última modificação 09/12/2011 08h04
Quando cheguei por aqui, também nada entendi de suas estações, seus ritmos, sua pressa que leva as pessoas a falarem sozinhas enquanto caminham
Paulista

Avenida Paulista é a quinta região mais cara da cidade. Foto: Associação Paulista Viva

Tinha 110 anos quando a conheci – e lá se vão outros dez de convivência quase diária.

Para encará-la, olhava para cima, à altura de suas antenas, e ainda atordoado por chegar de longe sem entender seu ritmo, sua linha reta que se entortava e suas estações. Demorei para perceber que a Brigadeiro não ficava na Brigadeiro, como ainda não entendo por que a Paulista, recém-criada, fica na Consolação.

O prédio da Fiesp não parecia prédio, mas um imenso ralador de queijo. E o Masp não tinha porta à entrada, só um vão e elevador. O prédio residencial não tinha varanda, mas uma galeria. O casarão dos Matarazzo, do qual tanto ouvia falar, não era mais casarão; era estacionamento. E as luzes de postes imensos que pareciam iluminar uma orla, iluminavam apenas o concreto e os vidros, que à noite espatifavam cores.

 

Também não entendia sua pressa, sua mania de fazer as pessoas caminharem desatentas, falando sozinhas com elas mesmas. Pessoas que, de terno ou descalças, maltrapilhas ou perfumadas, dividiam as mesmas zebras, com passos sincronizados ao som de ruídos e buzinas – tão constantes que pareciam uníssonos, sem calar jamais, como ondas.

Ao primeiro encontro, as ondas faziam lembrar as ordens de Moisés, profeta do Antigo Testamento que, cajado ao alto, mandou abrir o mar para passarem os hebreus. Aqui, em suas zebras, as ondas são recortadas a cada minuto pelas mesmas ordens – mas os cajados são agora semáforos de luzes verdes (33 ao todo).

Agora o som ambiente, que parecia o barulho do mar, é outro. Foi trocado pelo som dos meus bolsos, onde levo as músicas que mais gosto.

Em dez anos, vi seus personagens envelhecerem, e outros simplesmente sumir. Seu Romeu, que vendia bilhetes de metrô na frente da Gazeta, não aparece mais desde que inventaram os bilhetes eletrônicos.

O rapaz que vendia camisetas engajadas, num varal improvisado próximo a um dos 14 pontos de ônibus, também não voltou. Deve ter sumido com o coreano que vendia yakissoba a preços módicos, temperado pela fumaça cuspida pelos escapamentos a poucos metros.

E seu Armando Colacioppo, o andarilho de cabelos longos e barba branca, que todas as noites deixava sua Vila Cachoeirinha, de ônibus ou bicicleta, e perambulava nos bares da região vendendo bonecos, também não voltou mais. Morreu de infarto, aos 62 anos, quando voltava a pé para casa, dias após uma longa conversa que tivemos numa mesa de bar.

Os hare krishna também sumiram - estavam lá todos os dias, hoje mal aparecem. Foram substituídos por ativistas, ambientais, culturais ou sociais, que formam verdadeiros corredores poloneses para captar possíveis financiadores da salvação humana. "Gosta de teatro, jovem?". Se disser que sim, já era.

Do alto, os personagens de todos os dias são apenas pontos minúsculos entre mais de um milhão e quinhentas pessoas que circulam por ela todos os dias – dias que chegam a receber 4.200 veículos a cada hora. No chão, são espécies de destaques na multidão.

As pedras das calçadas também foram levadas para outros espaços. Vieram os pisos lisos, e com eles os skates, os patins e até um patinete, que certa vez vi levar uma jovem executiva para o trabalho. Coisas que só se veem por aqui.

As pequenas livrarias também não existem mais. Sucumbiram como córregos extintos pela enxurrada de megaestores que invadiram suas avenidas e sugaram suas estantes.

O Stand Center, onde amigos deram a volta olímpica para comemorar a vitória da Coréia do Sul sobre a Itália, na Copa de 2002, mudou de nome e endereço, mas não de sotaque. De quando em quando o pau quebra, policiais recolhem equipamentos pirateados e, no dia seguinte, voltam a fazer vista grossa.

As paredes da Gazeta ganharam vidros, que agora avisam dos filmes que entram em cartaz. Filmes que chegaram às toneladas, e que tantas vezes me fizeram deixar as salas atordoado, pensativo, ou simplesmente envergonhado pelo vermelho ao redor dos olhos. Perto dali morreram dois velhos cinemas, um de salas enormes, que não resistiram à chegada dos novos descolados. Pipoca no cinema já não pega bem por estes lados.

Aqui vi praticamente todas as viradas de ano. Saía do plantão, corria para vestir uma camisa branca a poucos minutos para o ano seguinte, acompanhado de amigos que queriam e não podiam comemorar a passagem em outros lugares – e estouravam champanhes sem-vergonha e pulavam ondas imaginárias num chão inerte e escuro.

Aqui vi torcedores vibrarem com gols e conquistas, eleitorais ou esportivas. Até que as comemorações ficaram proibidas.

Na última delas, em 2005, torcedores quebraram tudo o que podiam e mais um pouco, para extravasar a alegria de uma tal Libertadores.

Naquela noite, vi portões serem chutados, vidros arrebentados, e uma das 31 bancas de jornais da avenida ser chutada a voadoras, até ter suas portas erguidas, invadidas por uma multidão de camisas oficiais, que levavam o que podiam de revistas, produtos e brindes – de onde estava, pude ver um mendigo que passava ali todas as noites, recolhendo latas e papelões, balançar a cabeça e reprovar com os olhos o saque a céu aberto.

E vi também atropelamentos, assaltos (o sujeito toma um tapa quando está ao celular, e quando vê, o ladrão na bicicleta já escapou), abordagens e perseguições policiais, manifestações, marchas, pancadarias, playboy maltratar garçom, gay apanhar de neonazista, namorados com dedos em riste – e uma menina de 15 anos pular a janela, e ser salva pelo toldo do vizinho do primeiro andar.

Não passei um dia sem ter história para contar ao chegar em casa. Porque aqui qualquer dia, de todos os anos, não é qualquer dia. Basta colocar a cabeça para fora e ver tudo acontecer, uma roda girando em torno do centro, um centro que puxa tudo de tudo do Brasil inteiro. E que, uma vez atingido, torna tão difícil a saída pela tangente.

Quando é frio, o vento castiga. O corredor de prédios se torna um funil. Quando é calor, os ares enganam: quem anda tem a ingênua sensação de que terá sombra ou refresco a qualquer momento, na primeira esquina.

Não terá, a não ser que se pague.

O consolo é o compasso nos passos – que, no meio de uma tarde, faz lembrar os versos de Drummond. “Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração. Porém meus olhos não perguntam nada”.

Juro que não perguntam.

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