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Cultura

Cartas de Portugal

Augusta

por Eduarda Freitas — publicado 11/02/2011 11h03, última modificação 14/02/2011 11h01
Augusta de 87 anos de idade, esteve 9 anos morta em casa. Sem que ninguém desse conta. Uma crônica de Eduarda Freitas

Não sei sequer como começar esta crónica.
Uma senhora a viver num apartamento perto de Sintra, na Guinchoa, morre. Morre a senhora que vivia só. Não só. A senhora vivia com um cãozinho.
Morre a senhora que antes de enviuvar passeava com o marido, pelo bairro de prédios.
Depois ficou só – com o cachorro – mas continuou a passear. Cada vez menos. Trinta anos de solidão.
E eu, que não a conheci, imagino-lhe o olhar triste fixo no céu cinzento e as saudades do marido que deixou de ter por perto.
A senhora de 87 anos, um dia deixou de ir à rua. E o cachorro também.
Houve quem achasse estranho...alguém se questionou onde andaria Augusta.
Uma vizinha velhota tentou que a policia abrisse a porta, mas a policia não tinha autorização. E as cartas das finanças na caixa de correio que não paravam de aumentar. E Augusta? E a vizinha ainda tentou falar com um sobrinho de Augusta, mas nem sei que rumo deu a conversa, ou melhor, sei: deu em nada. E passou o ano de 2002 e o Natal e nas janelas as luzinhas da arvore a piscar e as prendas desembrulhadas – imagino – e o bacalhau com batatas e depois o ano novo. De novo: e Augusta? Chegou a primavera e mesmo entre prédios, há sempre uma ou outra flor que teima em ver humanos. E o verão...já só se falava no Euro 2004. Que chegou! O treinador pediu e o povo cumpriu, bandeiras nas janelas, pois então. E imagino – outra vez imagino – as janelas do prédio de Augusta repletas de bandeiras portuguesas, nação de estendal ao vento. E na janela de Augusta? Nem um sinal de patriotismo. Os golos de Portugal. O choro na final. A caixa de correio a ficar cheia. O ministério das finanças em cima do acontecimento: ou paga os impostos ou fica sem casa. Mas Augusta nada disse. Nem levantou o dinheiro da reforma. Normal (?!). E depois, lembro-me eu, 2005, ano de incêndios, o calor bravo e o Natal outra vez e outra vez a chorar por Portugal. E Augusta? Nem uma lágrima por este país que também é seu? E 2007...e 2008...e a crise, ai a crise...e 2009...e 2010...a crise, ai a crise...e assim não pode ser: se não paga fica sem casa! Venda-se a casa em leilão, diz o Ministério das Finanças! Augusta nem se importa! E o novo inquilino que comprou sem ver o novo lar – que não tinha chave, mas devia ser igual à da vizinha de baixo – vai um dia para as mudanças e a porta bem fechada. Bombeiros, policia e novo inquilino: um, dois, três! Abriu. E a da cozinha? Não abre! Chamem o serralheiro! Pois então! E Augusta? Augusta, no chão da cozinha. Data da morte: indeterminada, no ano de 2002. Sim. No ano de 2002. Na varanda, o cachorro. Morto também. E eu tenho vergonha. E tenho medo. Que isto seja assim. Que o coração passe a ser programado nos ministérios e nas finanças e que os papeis substituam os abraços e que todos nós sejamos vitimas e carrascos. Augusta esteve nove anos morta no chão da cozinha.
E ninguém deu um pontapé na porta.
Desculpa, Augusta.