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Cultura

Carta de Portugal

As vozes não morrem

por Eduarda Freitas — publicado 13/10/2010 12h08, última modificação 13/10/2010 16h39
A colunista Eduarda Freitas escreve uma crônica sobre as reações à notícia de morte

Quando soube da morte da soprano Joan Sutherland lembrei-me da Xana.
A Xana é minha amiga e tem uns olhos castanhos que às vezes brilham muito. E os olhos da Xana brilham quando fala da Joan Sutherland. Ontem à noite, a Xana que se chama Alexandra, telefonou-me: “soubeste quem morreu?”. Eu tinha acabado de saber. “Lembrei-me logo de ti!”, disse-lhe. Na pausa das palavras, vi-me pequenina a ouvir as certezas do meu avô, “as pessoas não morrem, só mudam de lugar!”. A Xana - que não conheceu o meu avô - completa: “Agora está lá em cima, a cantar com o Pavarotti”. E de novo, o meu avô a olhar para a velha televisão, a ver na novela brasileira da noite um actor dado como morto em plena acção: “olha-o ali! Eu não disse?”. E tinha dito. E tantas vezes me disse, que quando o meu avô foi embora, fiquei a bater com os dedos no tampo da mesa, a inventar músicas que me convencessem que, afinal, ele só tinha mudado de lugar. Volto à Xana. Ao telefone fala-me das aulas de canto, das coisas de gente complicada, das outras e de nós. Neste “nós” cabe um país a braços com uma crise. Crise de tudo. “Escreve uma notícia sobre a Sutherland…mas a comunicação social só quer desgraças, não é?”. Abro os jornais. Orçamento de Estado que ninguém sabe se vai ou não ser aprovado, défice, greves, um país que está mal, a caminho de ficar pior. Entre as páginas cinzentas, a morte da soprano. Prendo-me numa curiosidade que me faz gostar do meu país, que me faz acreditar neste Portugal que tem uma história impar feita de pormenores tão belos. Joan Sutherland, considerada uma das maiores sopranos do século XX, esteve uma única vez em Lisboa. E foi, precisamente, a 25 de Abril de 1974, na madrugada em que Portugal acordou para a Revolução. Sorrio. É linda esta imagem de uma voz divinal no Coliseu dos Recreios a cantar La Traviata de Verdi, enquanto cá fora outros festejavam a revolução que iria acabar com os 48 anos de fascismo em Portugal. Diz, quem lá esteve, que a soprano australiana levou ao delírio o Coliseu. No final, foi-lhe oferecido um ramo de cravos vermelhos, símbolo máximo da nossa revolução sem tiros. Joan nunca mais voltou a Portugal. Morreu este domingo, com 83 anos, na Suiça, junto ao lago de Genebra, onde vivia. Tenho a certeza, que cada vez que a Xana ouvir a voz daquela a quem chamavam “La Stupenda”, vai acreditar que as pessoas não morrem. Mudam de lugar.