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Cultura

Crônica do Villas

As tais fotografias

por Alberto Villas publicado 26/02/2016 15h20, última modificação 26/02/2016 15h23
Confesso que sou um viciado em retratos em branco e preto
Alberto Villas e Mylton Severiano

Eu e Mylton Severiano da Silva observando atentamente o número zero da revista Brasil Extra

Em 1969, quando o homem pisou na lua pela primeira vez, Caetano Veloso estava na cadeia. Foi na prisão que chegou às suas mãos um exemplar da revista Manchete com as primeiras fotografias da lua, feitas pelos astronautas americanos. E também fotos maravilhosas do nosso planeta, visto assim do alto. Foi atrás das grades que Caetano compôs Terra

 

Quando eu me encontrava preso
Na cela de uma cadeia
Foi que vi pela primeira vez
As tais fotografias
Em que apareces inteira
Porém lá não estavas nua
E sim coberta de nuvens

Nos anos 1950, o biólogo, cronista  e compositor Paulo Vanzolini, escreveu um poema e, logo em seguida, colocou música. Muitos anos depois, Chico Buarque gravou a canção chamada Praça Clóvis. 

Na praça Clóvis
Minha carteira foi batida
Tinha vinte e cinco cruzeiros
E o teu retrato
Vinte e cinco
Eu, francamente, achei barato
Pra me livrarem
Do meu atraso de vida

 Em 1968, Chico Buarque e Tom Jobim sentaram no piano, numa tarde de papo e whisky, e fizeram uma música  que ganhou o nome de Retrato em Branco e Preto

Eu trago o peito tão marcado
De lembranças do passado e você sabe a razão
Vou colecionar mais um soneto,
Outro retrato em branco e preto
A maltratar meu coração

No auge da Jovem Guarda, naquelas alegres tardes de domingo, a dupla Leno e Lilian fazia  muito sucesso na televisão cantando O Retrato

O retrato que eu te dei
Se ainda tens não sei
Mas se tiver, devolva-me

Eu sempre fui fascinado por fotografia e tudo que fala de fotografia. Músicas, crônicas ou contos.Herdei dos meus pais, um baú de retratos em branco e preto e é raro o dia em que não trabalho em cima deles.Catalogando, digitalizando, organizando uma vida inteira que o meu pai, Rolleiflex a tiracolo, foi registrando.

De vez em quando, amigos me enviam inbox, fotos perdidas no tempo e eu passo horas analisando, uma a uma.Outro dia chegou aqui, em péssimo estado, a primeira feita no meu exílio. Eu estava numa praia na França, magérrimo, com uma juba de leão, cajado na mão, sei lá porque.

Alberto Villas na França
A primeira foto do exílio: numa praia na França, magérrimo, com uma juba de leão, cajado na mão, sei lá porque

Tentei melhorar a qualidade, em vão. Mas ela está aqui revelada, guardada como documento, como peça de um museu particular de fotografias.

Há alguns dias, foi uma foto dos anos oitenta que entrou na minha caixa. Eu e Mylton Severiano da Silva, o Myltainho, observando atentamente o número zero da revista Brasil Extra, lá na redação da Gazeta de Pinheiros.Passei horas observando aquela fotografia, rindo da gola enorme da minha camisa, dos meus óculos, da minha magreza.

Da elegância discreta de Myltainho,de echarpe e tudo mais. Devia ser inverno. Em cima da mesa, o número zero da Brasil Extra com a manchete “Os prostitutos do Brasil”. Eram outros tempos.

Fotografia pra mim não é apenas um pedaço de papel, uma imagem no computador ou um quadro na parede. É memória, memória pura. E às vezes dói.

Semana passada, um amigo, o Aloísio Morais, postou no Face uma foto bem antiga, dos anos 70, de um personagem folclórico de Belo Horizonte. No registro de Washington Alves, uma foto do Tostão, mais conhecido como Sapo.

Sapo
A fotografia chegou junto com a notícia da morte dele

Sapo era famoso na cidade, circulava na madrugada de BH, de bar em bar, vendendo jornais. Sapo era uma figura única. Ninguém sabia o seu nome de batismo, de onde veio, para onde ia.

Ganhou esse apelido devido aos olhos esbugalhados, sempre atendo aos jornais que vendia, ao dinheiro que levava dobradinho entre os dedos e também às manchetes que ele inventava, incrementando pra vender o seu peixe.

- Extra! Extra! Exposição de Belo Horizonte só reúne animais de raça. Figueiredo e Francelino estarão presentes!

Todo mundo ria, todo mundo comprava o jornal do Sapo, jornal quentinho, saindo do forno, que chegava a sujar nossas mãos de tinta.

Na fotografia, Sapo está de pé, calça e camisa brancas, chinelo de dedo, cabelos em caracóis, olhando para algum cliente ou alguma moça tomando cerveja no Bar do Lucas, Edifício Maleta, centro da cidade. Esse era o seu jeito, assim meio largado, meio riponga, de boa.

A fotografia chegou junto com a notícia da morte dele. Carlos Avelin conta, no Face, que Sapo foi morto a pontapés, numa madrugada suja quando retornava pra casa, no bairro Cabana.

Ele se negou a entregar o dinheiro arrecadado no dia, foi derrubado e bateu com a cabeça numa boca-de-lobo, numa esquina da Avenida Amazonas. Não sei quando isso aconteceu.

Triste, imprimi a foto do Sapo e coloquei numa das pastas do meu museu particular de fotografias, onde pessoas especiais repousam em paz.