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As tais fotografias

por Rosane Pavam publicado 20/07/2010 12h36, última modificação 28/07/2010 10h28
Entrevista traz imagens de Francis Bacon e seu humor
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Francis Bacon fotografado pelo jornalista Franck Maubert, em 1982.

Entrevista traz imagens de Francis Bacon e seu humor

Ele sorria o tempo todo durante a entrevista concedida em Londres, no ano de 1982, a um crítico de arte da revista semanal francesa L’Express. Sorria, rememorava e bebia vinhos um pouco mais caros e menos refinados do que aqueles obtidos facilmente, com melhor qualidade, na residência parisiense anterior. O jornalista Franck Maubert lutara por três anos até obter livre acesso ao número 7 da rua Reece Mews, onde Francis Bacon (1909-1992), nascido em Dublin de pais ingleses, então produzia seus quadros. Um dos maiores pintores contemporâneos recebeu o jornalista nessa casa-ateliê modesta, empilhada de retratos e reproduções de seus quadros nas paredes, radiogravador e ventiladores sobre cadeiras. Papéis, sapatos descasados, luvas de borracha cor-de-rosa, esponjas velhas, arbustos de pincéis se misturavam, um todo irreconhecível, no chão.
Francis Bacon se divertia. Para um apreciador de sua grande arte, talvez esta seja uma surpresa. E há, principalmente, as tais fotografias feitas por Maubert de maneira amadora, câmera portátil ruim, durante as conversas. O que elas mostram é um senhor arrumado, casaco de couro, gravata, elegância contrastante com a ausência de arrumadeiras no ateliê, pronto a cooperar. Ele tinha uma desculpa para a bagunça que via todos os dias. Um pintor precisa dela. A poeira havia sido aplicada certa vez em um pano úmido e, depois, a uma tela. Bacon morrera de rir ao ver dois críticos presentes a um vernissage penarem sem sucesso para entender a maneira pela qual a “pincelada” fora feita.
Maubert, o racionalista entrevistador, está sempre boquiaberto com aquilo que o artista lhe revela. O modo “clínico”, quiçá limpo, que tinha Bacon de retratar a condição humana em uma tela não combinava com o ateliê sujo, nem com a personalidade generosa, brincalhona, do próprio artista. Ele até sabia apreciar certas visões da crítica, sempre atônita com sua obra, mas jamais mistificava o próprio trabalho: “Não sei fazer uma tela.” Dizia ser sua pintura, primordialmente, instinto. Gostava do confronto com a carne e a intitulava “verdadeira escoriação da vida em estado bruto”.

CONVERSAS COM FRANCIS BACON
Franck Maubert
Jorge Zahar, 93 págs., R$ 28