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As sandálias da humanidade

por Redação Carta Capital — publicado 08/11/2011 10h30, última modificação 08/11/2011 10h30
Na Belo Horizonte dos anos 50 gente humilde, pobre, usava sandália de borracha. O Brasil foi mudando e, aos poucos, as legítimas foram ganhando outras cores. Chegaram a Paris
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Na Belo Horizonte dos anos 50 gente humilde, pobre, usava sandália de borracha. O Brasil foi mudando e, aos poucos, as legítimas foram ganhando outras cores. Chegaram a Paris. Foto: Divulgação

Por Alberto Villas

 

Na Belo Horizonte dos anos 50 gente humilde, pobre, usava sandália de borracha. Sim, era assim que nós mineiros chamávamos as legítimas. Aquelas sandálias que fizeram do jovem Chico Anísio o garoto propaganda anunciando na televisão em branco e preto que elas não tinham cheiro, não deformavam e nem soltavam as tiras.

Era um modelo só, fundo branco e duas cores: azul calcinha e verde água. Eram essas sandálias que aguentavam o batente, o dia a dia do povo brasileiro. Nos pés de trabalhadores elas se arrastavam por casas de terra batida, pulavam brejo, perambulavam em fins de feira, percorriam dezessete léguas e meia só pra ver se Rosinha estava lá.

Lavavam chiqueiros, galinheiros, circulavam por ruelas das favelas, andavam por cemitérios, subiam em paus de arara fugindo da seca e da fome, faziam força pra entrar nas escolas, dançavam forró, pau pra toda obra as tais legítimas.

Quando soltavam as tiras – sim, soltavam – era um grampo de cabelo que dava a elas uma sobrevida, vida que ia até a sola gastar por inteiro. Coisa de pobre, de gente humilde.

Eram nas vendas que se compravam as legítimas. Ficavam dependuradas bem na porta, enfiadas num arame, ao lado das concorrentes, as alpargatas que tinham sete vidas. As legítimas tinham um pouco menos.

Quantas e quantas vezes as patroas não ouviram aquele slap slap slap das legitimas andando pela casa grande e senzala? As criadas com a vassoura numa mão, espanador na outra, pano de tirar pó no ombro e as sandálias de borracha no pé.

Muitos as tinham como único par de calçado, se é que poderíamos chamá-las de calçado. De norte a sul, de leste a oeste desse país lá estavam elas, verdes e azuis pra lá e prá cá. No serrado, nas campinas, nas montanhas, nas florestas. Chutando pedra, atravessando riacho, comendo pó.

O Brasil foi mudando, mudando e, aos poucos, as legítimas foram ganhando outras cores, mais bonitas, cores vivas. Começaram a circular pelos supermercados, arriscando até mesmo chegar perto do freezer onde estavam os danoninhos, os yakults, os iogurtes. Começaram até mesmo a frequentar o Posto 9 de Ipanema, quem diria! Um dia, sem mais nem menos, entraram nos shoppings-centers e foram vistas em aeroportos, logo elas que só chegavam até as estações rodoviárias. Metidas, elas!

O velho e bom Chico Anísio já não é mais um garoto, muito menos propaganda. Deu lugar a celebridades que fazem anúncios engraçadinhos em televisores de tela plana. E nem precisam mais dizer que elas não têm cheiro, não deformam e não soltam as tiras.

As danadas das legítimas, quem diria, voaram até Paris. Já foram flagradas subindo o Boulevard Saint Michel, entrando no Jardim de Luxemburgo, percorrendo o Museu d’Orsay, passeando à beira do Sena, até mesmo no Deux Magots. Põem metidas nisso! Uma foi vista toda sirigaita até mesmo numa vitrine das Galerias Lafayette, inteira cravejada de pedrinhas ao preço de 1.200 Euros.

Outro dia, me disseram, foram vistas slap slap slap passeando numa rua de Early’s Court em Londres e todas serelepes descendo as Ramblas de Barcelona.

Nunca na história desse país aquelas brasileiras legítimas - pois é - que ninguém acreditava que um dia iam subir na vida estão toda prosa.

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