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Cultura

Cariocas (Quase Sempre)

As ruas do barulho no Rio de Janeiro

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 18/04/2011 09h22, última modificação 18/04/2011 10h26
A instituição de faixas seletivas na Nossa Senhora de Copacabana e na Rua Barata Ribeiro, as duas principais vias de Copacabana, está funcionando

A instituição de faixas seletivas na Nossa Senhora de Copacabana e na Rua Barata Ribeiro, as duas principais vias de Copacabana, está funcionando. O trânsito flui mais rápido além de dar ao carioca uma sensação de que a casa finalmente está sendo arrumada. Talvez por isso mesmo, por conseguirmos, agora, ver o outro lado da rua, o que antes era quase impossível dado o número de ônibus e carros disputando seu pedaço no asfalto, o ruído urbano parece ter aumentado.

Se não aumentou, ficou mais evidente aos ouvidos. Por serem estreitas, as vias na zona Sul são extensos e verdadeiros corredores ladeados por prédios altos, canalizando o que há de pior em matéria de poluição sonora, se é que há algo de bom nisso. Os ônibus daqui rosnam alto como se fossem feras querendo abrir caminho na selva de pedra.

Uma das coisas que deixam os brasileiros surpresos é como o trânsito em grandes cidades europeias e americanas é tão silencioso quanto intenso. É só ir a Londres e Nova York, por exemplo, para ficar abestado (como diria nosso deputado Tiririca, e por que não citá-lo?) com o silêncio que move aqueles coletivos híbridos. Em Manhattan, as Quinta e Sexta Avenidas podem estar paradas, o que frequentemente acontece nos horários de rush, mas o ar é respirável e o som ambiente dos mais civilizados.

Fora a fumaça que os ônibus de lá não expelem, ao contrário do que ocorre por aqui não só com  alguns coletivos ainda, mas principalmente com caminhões e ônibus "piratas". Aliás, os "piratas" parecem mesmo uns navios mal-assombrados, que inspiram  um certo medo pensar em entrar ali. Dá sensação de que se vai embarcar para o desconhecido. Cruz-credo! Mas quem tem necessidade de ir e vir não pensa nisso.

Tamanha é a bandeira que dão esses ônibus ilegais, que é impossível entender como seus responsáveis ousam colocá-los nas ruas na maior cara de pau. Só impunidade, embora se saiba que a prefeitura esteja de olho, pode responder  a tamanha desfaçatez, porque é  inexplicável que as trapizongas não sejam aprendidas ao percorrer o primeiro quarteirão. Normalmente, eles  cobrem itinerários intermunicipais, o que aumenta sua exposição e o número de paradas que fazem.

Síndrome do bueiro. São tantos os bueiros por metro quadrado nas calçadas da zona Sul, que é difícil evitá-los até quando se está parado. Na semana em que o segundo bueiro da Light explodiu, em Copacabana, sem que uma verdadeira tragédia tenha acontecido, uma senhora não escondia sua inquietação ao esperar abrir o sinal da Nossa Senhora de Copacabana com Constante Ramos, a dois quarteirões de onde se deu o acidente.

Sem saída, ela pediu ajuda a outros pedestres, perguntando onde poderia ficar parada à salvo. Ainda bem que o sinal abriu antes que alguém respondesse o irrespondível.

Rio antigo. É como daqui a pouco chamaremos a cidade em que vivemos hoje. Afinal, apesar dos profundos contrastes, o país está deixando, para o bem e para o mal, de ser Terceiro Mundo.