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Olimpíadas 2012

As lições de Londres

por Redação Carta Capital — publicado 26/07/2012 11h56, última modificação 26/07/2012 12h35
O desafio até 2016 é fazer o jeitinho brasileiro ser contagiado pela disciplina britânica. Por Dionara Melo
London

Mascote das Olimpíadas é fotografado a poucos dias dos Jogos em Londres. Foto: Leon Neal/AFP

 

Por Dionara Melo, em Londres

 

Na Oxford Street, no coração de Londres, operários trajando reluzentes uniformes cor de laranja retocavam o asfalto a poucos dias da abertura da Olimpíada. O trânsito em meia pista provocava uma fila dos tradicionais ônibus vermelhos de dois andares. Um turista desavisado poderia ficar com a impressão de que a cidade ainda era um canteiro de obras. Mas a realidade da capital da Inglaterra é completamente diferente.

 

Em um país em que a pontualidade é questão de honra, onde existe hora marcada até para beber chá e os metrôs saem pontualmente em horários quebrados - às 9h02 -, a preparação para sediar os Jogos não poderia fugir à regra. Londres está pronta para receber a 30ª Olimpíada da era moderna e mais de 5 milhões de visitantes. Está pronta há bastante tempo. As principais obras foram entregues um ano atrás. Ao fazer o dever de casa ao estilo britânico, cumprindo à risca os prazos do calendário de obras do Caderno de Encargos entregue ao Comitê Olímpico Internacional (COI) em 2005, a capital inglesa se encaminha para fazer os melhores Jogos Olímpicos de todos os tempos.

O sucesso pré-evento fez Londres inspiração para o Rio, a próxima sede. Mais de 100 funcionários do Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos Rio 2016 estão na cidade. São quatro frentes de trabalho para acompanhar toda a operação do evento. Um grupo passará por treinamentos oferecidos pelo COI. Outro participará apenas como expectador, como se fosse um torcedor que comprou ingresso. O terceiro verá na prática como profissionais do comitê londrino desempenham as mesmas funções que eles desempenham no Brasil. O quarto grupo irá colocar a mão na massa trabalhando de fato nos Jogos, os chamados “secondees”, profissionais brasileiros que foram submetidos a seleções no Brasil e na Inglaterra.

“Nunca duas cidades trabalharam tão próximas para a realização da Olimpíada”, comemorou o presidente do Comitê Organizador da Olimpíada de Londres, Sebastian Coe, ao falar da troca de informações entre as duas cidades.

Londres tem mesmo muito a ensinar. Os cinco complexos permanentes ficaram prontos há mais de um ano. O Parque Aquático, o último a ser inaugurado, foi entregue no dia 27 de julho de 2011, data da festa para começar a contagem regressiva de um ano para os Jogos. Os outros quatro - o Estádio Olímpico, o velódromo, a arena que receberá os jogos de handebol e o centro de imprensa - já haviam sido finalizados. O complexo se estende por uma área de 2,5 mil quilômetros quadrados (equivalente a 350 campos de futebol). Os 42 eventos testes nos 28 locais de competições foram um sucesso. No fim de março, o COI fez sua 10ª e última visita de inspeção e considerou a cidade pronta. "Londres está preparada para receber o mundo", declarou Denis Oswald, presidente da comissão de inspeção do COI.

Os britânicos também concluíram a tempo as obras de infraestrutura. As principais foram no bairro de Stratford, no leste, onde está o Parque Olímpico. Era uma antiga área industrial degradada que passou por uma transformação com a construção de pontes, linhas de energia e ruas. Os maiores investimentos foram para construir a estação de trens e de metrô de Stratford, que concentrará a segunda maior quantidade de conexões de transporte em toda a capital britânica. Na região, graças aos Jogos, foi erguido o shopping center Westfield, operação que abriu 10 mil novos empregos. Após a competição, os apartamentos da Vila Olímpica serão transformados em moradias e as ruas serão reconfiguradas para atender a população. O governo bate na tecla de deixar um legado para a cidade, o mesmo desejo do Rio.

“A região passou por 30 anos de recuperação em apenas cinco anos”, orgulha-se Dennis Hone, diretor-executivo da Olympic Delivery Authority (ODA).

Mas a capital britânica não vive só de afagos. Como no Brasil, o estouro no orçamento também gera questionamentos. Em março, a comissão de contas públicas do Reino Unido divulgou um relatório chamando a atenção para a possibilidade da fatura dos Jogos bater nos 11 bilhões de libras (35,2 bilhões de reais), acima dos 9,3 bilhões de libras (29,7 bilhões de reais) anunciados. Parte da diferença é por conta dos gastos que o governo terá para modificar o Parque Olímpico após o evento, até então não-contabilizados.

O que mais pesou na conta, no entanto, foi o custo com segurança, a principal neurose dos organizadores, que classificaram o evento como “de alto de risco de ataque terrorista”. O investimento para tentar evitar tragédias passou de 282 milhões de libras (902 milhões de reais) para 553 milhões de libras (1,7 bilhão de reais) - o número de profissionais nessa área saltou de 10 mil para 23 mil.

Justamente para alcançar a meta estipulada que duas semanas atrás o governo convocou 3,5 mil soldados, medida muito criticada. O Ministério da Defesa justificou a ação pelo temor de que a empresa privada de segurança G4S não conseguisse cumprir o contrato com os organizadores dos Jogos de treinar 10 mil homens.

O temor ao terrorismo justifica-se pelos atentados contra três estações de metrô e um ônibus na capital britânica um dia após o anúncio do COI de Londres como sede dos Jogos, em julho de 2005. Ao menos 52 pessoas morreram e mais de 700 ficaram feridas. Soma-se a isso a atuação no passado do IRA (Exército Republicano Irlandês).

Jon Coaffee, professor da Universidade de Birmingham, no Reino Unido, diz que a preocupação com terrorismo é justificável. Um dos autores do livro “Securing and Sustaining the Olympic City”, que estudou a segurança em sedes olímpicas, Coaffee lembra que os Jogos fornecem oxigênio e dão publicidade ao terrorismo, dois pontos que justificam tais ações.

“A principal ameaça para Londres vem de grupos terroristas internacionais. No Rio, as ameaças são crimes como roubo, mas dado ao alto nível dos Jogos os organizadores terão de planejar prevenção também a ataques terroristas. O Rio se comprometeu em utilizar o CPTED (Prevenção ao Crime através do Desenho Ambiental), técnica para criar espaços urbanos mais seguros. Este é um esquema pioneiro no Reino Unido e que está sendo utilizado amplamente nos Jogos de 2012”.

Outro problema de Londres foi a falta de mobilização com o evento. Até as vésperas da abertura a cidade ainda parecia alheia aos Jogos. A não ser pelo relógio da contagem regressiva inaugurado com festa na Trafalgar Square (um dos principais pontos turísticos) pode-se dizer que o clima olímpico não contagiou os londrinos. Um dos motivos de antipatia local é a criação de 50 quilômetros de vias exclusivas para o uso da “família olímpica” (VIPs, atletas, patrocinadores e a mídia) durante o evento. Os moradores temem o caos. O Governo sabe disso e está pedindo para a população andar a pé ou de bicicleta durante as competições. A empresa responsável pelo transporte público na capital britânica admite que poderá ocorrer atrasos e superlotação nos 400 quilômetros de linhas do metrô.

Mas como até agora as notícias na Terra da Rainha são mais positivas do que negativas, as autoridades brasileiras sabem que a comparação com Londres será inevitável. E as alfinetadas já começaram. Na primeira semana de junho, em visita ao Rio, a chefe da comissão de coordenação do COI, Nawal El Moutawakel, demonstrou preocupação com os prazos de entrega de instalações olímpicas para 2016. A luz amarela está acesa no Parque Olímpico, na Barra da Tijuca, e no complexo esportivo de Deodoro. Em ambos os casos, as obras ainda não começaram.

“Está ficando claro que o tempo para entregar está bastante apertado e a quantidade de trabalho é bastante considerável”, declarou Nawal, durante a visita de três dias na cidade.

Apesar da pressão, a Prefeitura do Rio diz estar tranquila em relação aos prazos. A presidente da Empresa Olímpica Municipal, Maria Silvia Bastos Marques, afirma que as obras de infraestrutura de responsabilidade estão seguindo o cronograma e algumas foram até antecipadas. Ela cita o caso do Sambódromo, ponto de partida e de chegada da maratona e da competição de tiro com arco. A reformulação prevista para 2015 foi entregue em fevereiro, para o Carnaval.

Um dos motivos da preocupação do COI começou a sair do papel somente no início de julho, o Parque Olímpico. O projeto é o da empresa inglesa Aecom, a mesma responsável pelo desenvolvimento do Parque Olímpico de Londres.

“O trabalho está sendo feito com profissionalismo e planejamento. Por isso, confiamos que o Rio de Janeiro cumprirá todos os requerimentos do COI e, assim como Londres, realizará Jogos Olímpicos de grande qualidade técnica. Mas é importante ressaltar que, mais do que organizar o evento em si, o objetivo da Prefeitura é tornar o Rio de Janeiro um lugar melhor para seus moradores, com mudanças estruturais de transporte, infraestrutura urbana, meio ambiente e desenvolvimento social”, declarou Maria Silvia.

Criada em 2011 pelo prefeito Eduardo Paes, a Empresa Olímpica Municipal será responsável por coordenar a execução dos projetos municipais voltados para os Jogos de 2016, semelhante ao modelo criado por Londres. A palavra de ordem é legado. A empresa também estará presente em Londres.

Assim com os representantes do Comitê Rio 2016, a intenção é fazer o jeitinho brasileiro ser contagiado pela disciplina britânica.