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Cultura

O Garoto da Bicicleta

As bicicletas da nossa infância

por Matheus Pichonelli publicado 23/11/2011 17h59, última modificação 11/11/2016 15h34
Em sua busca irracional pelo pai, a criança descobre desde cedo que - seja pelo chicote, seja indiferença - a justiça humana tem instrumentos próprios e que não somos convidados a manejá-los
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O garoto da bicicleta, Cyril Catoul, personagem de Thomas Doret em filme de Jean-Pierre e Luc Dardenne. Foto: Divulgação

Graciliano Ramos escreveu certa vez que conheceu a justiça dos homens no dia em que o pai levantou da rede e não encontrou seu cinturão. Sem ninguém para colocar a culpa pelo sumiço, transformou o filho, que não sabia do destino da correia, em réu. Foi erguido pelo braço e açoitado com chicote, as costas fustigadas pela folha de couro.

 

Segundos após o flagelo, o pai descobriu que o cinturão havia apenas se desprendido da fivela, e estava sã e salva na rede onde dormia. Mesmo assim, seguiu espumando, sem jamais demonstrar arrependimento pelo flagelo. “Foi esse o primeiro contato que tive com a justiça”, descreve o autor alagoano em seu livro “Infância”.

No caso de Cyril Catoul, personagem de Thomas Doret em “O Garoto da Bicicleta”, a justiça humana é também reconhecida muito cedo, graças à crueldade paterna. Trancado num internato, ele passa parte do filme tentando driblar os indícios de uma realidade tacanha: o pai fora homem suficiente para coloca-lo no mundo, mas não para criá-lo (ou para dizer que não podia nem queria cria-lo).

Durante boa parte do filme, pouco sabemos sobre Guy Catoul (Jérémie Renier), a não ser pelos rastros de sua desistência. No internato, o menino espera sempre a primeira brecha para escapar e dar sequencia, ele mesmo, à investigação sobre o paradeiro do pai. A revelação abrupta da verdade, a de que não é querido por quem mais quer por perto, é avassaladora.

A história de Cyril Catoul faz lembrar que onze em cada dez crianças (ou adolescentes) já se perguntaram, alguma vez na vida, por que diabos têm de se sujeitar a eventuais desmandos (justos ou injustos) dos pais se nunca, em momento algum, pediram para nascer. Nessa idade, até o início da adolescência, a simples contrariedade da vontade leva qualquer infante a espernear, lançar-se ao chão, gastar a voz ou simular falta de ar... Mas algo parece implodir qualquer possibilidade de resposta diante da maior das injustiças, que é a rejeição justamente de quem nos trouxe ao mundo.

No filme, os irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne conseguem colocar nos olhos de Cyril toda a impaciência, insegurança, confusão e revolta que esta implosão poderia provocar. O ator-mirim é um gigante. Como numa contrapartida, os diretores devolvem à criança a bicicleta que seu pai tentou vender para juntar dinheiro – e se livrar do último lastro que ainda o ligava ao filho.

Pegue qualquer propaganda comercial pensada para o Dia dos Pais e não faltará uma imagem de criança sendo treinada, orientada, incentivada pelo pai a aprender a andar sozinha de bicicleta, talvez o momento da vida em que a relação pai-e-filho represente melhor a tensão do rompimento familiar. De um lado, o medo de cair; de outro, o de que alguém caia e se machuque; de um lado, a crença de que é possível se distanciar em segurança; do outro, a confiança de que não haverá queda – e que, caso haja, alguém maior estará de prontidão. É uma aflição dupla, mas em sintonia.

Não se sabe onde estava Guy quando o filho aprendeu a andar de bicicleta – ofício que exige, de antemão, equilíbrio e confiança, como na vida. Não é por acaso. Como não é por acaso o fato de que algo sempre acontece quando Cyril interrompe sua caminhada a duas rodas e pisa no chão, deixando a bicicleta à própria sorte, do lado de fora dos estabelecimentos. No alto da sua confusão infantil, é como se admitisse ser capaz apenas se manter de pé enquanto houver impulso, ainda que lhe falte o apoio original. Mas as regras escapam da sua compreensão, e de sua possibilidade de interferir no destino que lhe foi reservado por quem decretou sua sorte antes que pudesse crescer, aparecer, se impor. Porque para crescer, aparecer, se impor (e ter voz e vez) é preciso o mínimo de confiança de que alguém em algum momento estenderá a mão – alguém para se mostrar o desenho quando acabamos de rabiscar o papel, ou mostrar (ou esconder) o boletim no fim do bimestre, ou perguntar como as estrelas seguem no alto sem jamais se espatifar no chão.

Em sua busca irracional pelo pai, a criança descobre desde cedo que - seja pelo chicote, seja indiferença - a justiça humana tem instrumentos próprios e que não somos convidados a manejá-los. Mas descobre também espasmos de solidariedade de quem acena com o mínimo de humanidade num caminho que é, por si, um rastro de desencontros.

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