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Fusão

Arte Total

por Alexandre Freitas — publicado 06/12/2010 10h25, última modificação 06/12/2010 10h31
Lideradas pela música, todas as artes deveriam se fundir para se tornar a “arte do futuro". Uma ideia de Richard Wagner, primeiro aplaudida e depois vaiada por seu maior apreciador e seu maior crítico, Friedrich Nietzsche

Parece pretensioso. E é. Lideradas pela música, todas as artes deveriam se fundir para se tornar a “arte do futuro”, Gesamtkunstwerk (obra de arte total). Uma ideia de Richard Wagner, primeiro aplaudida e depois vaiada por seu maior apreciador e seu maior crítico, Friedrich Nietzsche.
Mas não foi o compositor alemão o primeiro a acreditar e a buscar correspondências entre materiais artísticos diferentes. Desde Isaac Newton persegue-se, por diversos caminhos, a utopia de uma fusão entre cores e sons. Tenta-se encontrar o lugar secreto onde as coisas se assemelham em suas essências, em suas origens e em seus fins. Kandinsky, em Do Espiritual na Arte (Martins Fontes), queria que substituíssemos as correspondências exteriores, materiais e fáceis, por ressonâncias interiores, puras e profundas. As emoções não deveriam ser acústicas, visuais, olfativas etc, e sim “puramente espirituais”.
 A Cidade da Música de Paris apresentou na última semana uma série de três concertos ligados pelo tema da Arte Total. Cada apresentação trazia no programa pelo menos uma obra que tentava cruzar ou construir algum elo mais profundo entre as dimensões sonoras e visuais.
A primeira obra foi encomendada e estreada pelo Ensemble Intercontemporain, o célebre grupo especializado em música contemporânea fundado por Pierre Boulez e atualmente dirigido por Bruno Mantovani. Objetos Impossíveis I e II (2010), compostos por DmitriKourliandski, tinham como conceitos norteadores a sobressaturação e a tensão, respectivamente. Não havia propriamente notas, mas efeitos instrumentais de todo tipo: pressão, sopros, atritos nas cordas, nas madeiras e nos metais que constroem os instrumentos. Esses sons eram captados por microfones e se tornavam imagens, depois de convertidos e manipulados em tempo real por dois vídeos artistas: Pedro Mari e Natan Sinigaglia. Nessas imagens, os conceitos gerais das obras se manifestavam em formas abstratas que reagem aos ruídos e sons provocados pelos músicos. Os objetos eram impossíveis, de acordo com o compositor, porque seu objetivo era fazer uma obra em que a subjetividade deveria ser deixada de lado. O forte impacto inicial daqueles efeitos musicais e visuais era substituído por um certo tédio por parte do público que, maldosamente, vaiou a obra. Faltava narratividade, uma historinha imaginária que estamos acostumados (nem sempre nos damos conta) a construir quando escutamos uma música, mesmo as puramente instrumentais. Mas a intenção do artista era somente a de sobressaturar e criar tensões, logo, ela foi muito bem sucedida.
 No segundo concerto a obra escutada e vista foi Quadros de uma Exposição (1874), de ModestMussorgsky, acompanhada de animações dos esboços dos quadros que Kandinsky realizou para ilustrar a música de seu conterrâneo russo. Sobre o pianista Mikhail Rudy eram projetados os desenhos geométricos de Kandinsky desmontados e montados com a intenção de uma sincronia que quase nunca acontecia. As imagens e os sons interagiam, é verdade, mas a música parecia sair enfraquecida e não era nunca complementada por todas aquelas imagens.
 O ciclo Arte Total se encerrou ontem com o Prometeu (1911) de Alexander Scriabin, poema sinfônico para piano, grande orquestra e luce, um órgão que projeta cores. Com Roger Muraro no piano e a orquestra de Lyon dirigida por JunMärkl, os feixes de luz que cortavam o fundo do palco interferiam na nossa percepção, colorindo e ampliando os efeitos de uma música. Embalado pelos ideais teosóficos e por uma suposta sinestesia do autor, Prometeu estabelece relações diretas entre as notas, as cores e estados de espírito. O interessante é que, independente dessas relações serem captadas ou não, o interesse da obra musical e os efeitos visuais é mantido na sua quase meia hora de duração. A obra terminou com uma luz violeta projetada em parte do público. Violeta representa a força criativa, acabei de ver na contracapa da partitura...
E assim a arte musical vai flertando com as artes vizinhas e revelando, por vezes, suas semelhanças secretas. A realidade da utopia da arte total se instaura. Mesmo que fugidiamente.