Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Arte de guerrilha

Cultura

China

Arte de guerrilha

por Willian Vieira — publicado 17/09/2010 01h02, última modificação 17/09/2010 16h05
Os irmãos Gao agem em segredo e driblam a polícia para dinamitar a imagem de Mao Tsé-tung, o líder que foi responsável pela morte de seu pai
materia5

Zhen (alto e esq.) e Qiang mostram a peça sobre prisão de prostituta

Os irmãos Gao agem em segredo e driblam a polícia para dinamitar a imagem de Mao Tsé-tung, o líder que foi responsável pela morte de seu pai

Gao zhen levanta-se da mesa do pequeno café no segundo andar da galeria e caminha até a torre do ar-condicionado, onde o volume jaz sob uma camiseta branca do avesso. Saboreando o momento como um mágico, Zhen ergue o tecido e uma estátua de Mao Tsé-tung de acrílico cor-de-rosa com rijos seios apontando para a frente surge sorridente. São somente cinco os segundos de nudez revelada de uma das peças da série Miss Mao. Ela logo volta ao anonimato in loco imposto pelos irmãos Gao, dois homens franzinos que  calham ser talvez os maiores nomes da iconoclastia na China hoje. “Não podemos expor essa obra, porque o governo proíbe”, diz Gao Qiang, 48, seu olhar indo do irmão para a rua, onde a arte contemporânea chinesa vibra além dos vidros. “Simplesmente não podemos.”

O sábado é de sol na florida primavera de Pequim. É o primeiro dia de uma feira de arte contemporânea no 798, o badalado distrito que surgiu como espaço para artistas alternativos e se transformou no coração da arte de mercado chinesa. Abraçado pela bondade econômica do governo, o 798 virou um parque de diversões para os novos-ricos que chegam em caravanas para comprar arte (cerca de 1 milhão de chineses e estrangeiros visitam o distrito todo ano). “Há poucos aqui que podem ser chamados de artistas. Isso virou um art mall”, provoca Gao Zhen, 54 anos, e sem exagero. Um passeio aqui atesta a esterilidade trazida pelas cifras, o que explica que as galerias briguem por atenção. A dos Gao, não.

*Confira este conteúdo na íntegra da edição 614, já nas bancas.