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Refogado

Arrozes

por Marcio Alemão publicado 25/02/2011 10h32, última modificação 25/02/2011 10h32
Há 60 anos, tínhamos, no máximo, o grão inteiro, sem “marinheiros”. Mas a onda pró-gourmet mudou tudo

Há 60 anos, tínhamos, no máximo, o grão inteiro, sem “marinheiros”. Mas a onda pró-gourmet mudou tudo 
 Recebi duas amostras de arroz da SLC Alimentos. Juntamente com as amostras veio uma carta do gestor de marketing da empresa, que é uma das cinco maiores da área do Brasil. Sinais dos novos tempos, pois não?
Você já tinha ouvido falar de “empresa de arroz”? Na verdade, acho que me faltou estabelecer a relação arroz/empresa. Nunca pensei na Camil como uma empresa de arroz, assim como a Tio João, que na verdade se chama Josapar e parece ser a grandona da turma. Se bem que no site da Camil, segundo uma associação, um critério, uma variável considerada em algum momento, eles são os maiores. Para o consumidor, não faz a menor diferença ser maior ou menor, desde que o produto que chega à nossa mesa tenha qualidade. E, estando na busca, acabei indo atrás da Brejeiro.
Em 1965, pouco depois ou pouco antes, entraram no ar os comerciais que mostravam o garboso arroz Brejeiro conversando com o pequeno e feio “marinheiro”, que mais estava para um pirata, com sua perna de pau. Fosse nos dias de hoje, aposto que a preferência do público iria para ele. Seu discurso era mais contundente. Dizia ele para o bonitão Brejeiro: “É triste, eu sei, ter sido selecionado numa usina... Ninguém olha para você. Vai direto para a panela. Comigo é diferente, a dona de casa me seleciona e me coloca em destaque bem no meio da mesa”.
Recomendo que você dê uma navegada no site do Brejeiro. Um dos velhos comerciais mostra o “marinheiro” muito louco, vestido de hippie, dizendo coisas sem sentido, sobre paz e amor. Seu antagonista, o bonitão Brejeiro, entra com um discurso caretão sobre a paz na panela, o amor à família... Imperdível.
No site, a história na empresa termina em 2006. Interessante. Na parte de fora de uma embalagem está escrito “não contém talco”. Lenda ou coisa de antigamente, diziam que na máquina que beneficiava o arroz era colocado um tipo de talco para melhorar o rendimento da produção.
De volta às empresas de arroz, recebi uma amostra de arroz-preto e outra que leva o nome de Risoto Crocante, que vem a ser uma mistura de grãos arbóreos e grãos vermelhos. Não provei, vou provar, mas, de cara, já fiquei feliz. Há 60 anos, o máximo que nos ofereciam era um arroz de grão inteiro, sem “marinheiros”. As commodities estão ficando cada vez menos comoditizadas. Imagino que, em números, os arrozes diferenciados devem representar pouco no faturamento dessas grandes empresas. Mas são eles que vão agregar valor à marca e fazer o preço da firma ou da ação subir.
O movimento pró-gourmet é positivo. Melhor ainda, poder comprar um bom arroz para risoto ou outro “étnico”  sem ter de pagar um preço muito alto.
Deixo agora as empresas de arroz para lá e vou para um panelão de arroz em um “quilo” qualquer ou para o réchaud de um bufê requintado. O que costumo encontrar é um arroz ordinário. Você que, como milhares de fãs, coleciona o Refogado, procure aquele no qual eu falo a respeito desse básico que continua a ser tão maltratado. Um arroz branquinho cheio de sabor é possível? No tal Refogado eu cito o da dona Yolanda. Feijão, então, como é difícil. Grãos bonitos, inteiros, caldo grosso que se forma naturalmente, sem acréscimo de coisa alguma. Leve, sem bacon. E, se tiver, porque admito que ajuda no sabor, que tenha essa função de extra e não se torne o protagonista.
A matéria-prima , temos visto que existe, melhorou. O feijão ainda é um problema. O bom tem de ser novinho e essas grandes empresas de feijão, sei não. Deve ser difícil separar o jovem do não tão jovem. Mas fica a minha sugestão. “Feijão novo”, com data da colheita na embalagem. Pode até ser mais caro, porque vai envolver outro trabalho. Mesmo assim, eu seria freguês.
Feijão bom, arroz bom, podemos dizer que temos. Mas continua em falta, em locais públicos e pagos, quem lhes dê a devida atenção.