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Aquele que não sabia desenhar

por Camila Alam — publicado 15/01/2011 12h06, última modificação 15/01/2011 12h06
O amplo universo de M. C. Escher chega ao Rio em mostra interativa. Por Camila Alam

O amplo universo de M. C. Escher chega ao Rio em mostra interativa

Não é mesmo um absurdo, traçar algumas linhas e depois dizer que é uma casa?” Absurda é a ideia de que o autor dessa frase, o artista gráfico holandês Maurits Cornelis Escher (1898-1972) se considerasse um desenhista ruim, daqueles que pouco improvisam e dependem de modelos reais à mão. Em meio às suas paisagens, ladrilhos, reflexos, repetições e estudos de perspectiva infinita, vez ou outra recorria a esses modelos, alguns de sua própria autoria. Mas são de sua imaginação e curiosidade que saíram suas mais brilhantes composições, xilogravuras e litogravuras a sugerir enigmas, expostas a partir de 18 de janeiro no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, e a partir de abril em São Paulo.

Sucesso de público em Brasília, com mais de 190 mil visitantes, a exposição O Mundo Mágico de Escher apresenta 95 gravuras originais, desenhos e instalações vindos do Museu Escher, na Holanda, aqui sob curadoria de Pieter Tjabbes. Foram cinco anos de negociação para trazer ao País as frágeis obras do artista. Dentre elas, estão paisagens pouco conhecidas, feitas na juventude, como a série Flor de Pascua (1921). São ilustrações de um folheto escrito por um amigo da Escola de Arquitetura e Artes Decorativas de Haarlem, sua primeira encomenda.

Nessa embrionária série de xilogravuras pouco detalhada e mais rústica estão temas que M. C. Escher trataria por toda a vida em sua obra. Nesta sequência de pequenas dimensões (12 cm x 9 cm) aparece a natureza, fundamental em sua obra, em meio a ladrilhos, repetições e espelhamentos. Montanhas, salamandras, plantas, sapos e formigas se fazem presente desde esse início.

A exposição segue cronologicamente até o período de 1935, em que o artista esteve na Itália e desenvolveu trabalhos sobre a perspectiva e a ilusão de ótica. O universo é tema frequente, influência pelo período em que costumava observar o céu com seu pai, de quem havia ganhado um telescópio na adolescência. Alguns teóricos, como a historiadora Micky Piller, que assina textos no catálogo da exposição, acreditam que a obra de M. C. Escher se divide neste momento. A partir daí, o holandês passou a explorar as metamorfoses, os caminhos cíclicos, os mergulhos no infinito, em gravuras que o consagraram e ao mesmo tempo foram rejeitadas pelos críticos de arte da época. Eles custaram a vê-lo como um artista moderno. Sua primeira mostra retrospectiva aconteceu somente em 1968, quatro anos antes de sua morte.

Os verdadeiros admiradores do artista, a princípio, eram os cientistas, encantados pela lógica matemática e geométrica de seus trabalhos, como Dia e Noite, de 1938. Com alguns deles costumava bater papos curiosos, buscando inspiração. “Durante um longo período era mais fácil encontrar uma gravura de Escher em um departamento de matemática do que em um museu”, diz Piller.

Um dos prazeres do artista era confundir o espectador, criar linhas e padrões ilusórios. Gostava de misturar dimensões, ignorar a gravidade. Não raro, suas correntezas seguiam rio acima, ou suas escadas perdiam o fim nas alturas. Suas paisagens conduzem o olhar do espectador para um movimento cíclico que nem sempre faz sentido. “É preciso haver certo grau de mistério, mas que não seja imediatamente aparente”, disse, em 1963. Assim como o pintor italiano Giorgio de Chirico (1888-1978), seu contemporâneo, brincava com a perspectiva de maneiras diversas. Para Piller, o espectador precisa “caçar” o ponto de vista, que pode mudar várias vezes em uma mesma imagem. “Quem aceita essa lógica escheriana sente-se em casa no mundo dele, onde a eternidade e a infinitude se abraçam.”

A infinitude se faz presente também quando o artista se utiliza de espelhos para criar espaços impossíveis, como Natureza-Morta com Espelho (1934) ou Natureza-Morta e Rua (1937). Em ambas, é requisitada a atenção do espectador para perceber diferentes planos e espaços que, embora impraticáveis, pareçam reais. “Sua realidade tem aparência totalmente plausível”, aponta a historiadora. Em outras ocasiões, seu reflexo em espelhos convexos dá origem a autorretratos, explora o ambiente por trás do artista, revela ao espectador o entorno de seu ateliê, o espaço que há entre o observado e o observador.

Sob influência da matemática e dos azulejos mouros, desenvolveu ladrilhos feitos com variações de um mesmo tema ou metamorfoses. O artista via nas repetições uma maneira de demonstrar seu fascínio pelo infinito e pela eternidade. Era, segundo o próprio, seu tema mais importante e realizou algumas peças em parceira com a esposa, Jetta. Ainda em 1922, fez deste um tema presente, como em Oito Cabeças, em que um padrão de bustos se encaixa e é repetido diversas vezes.

Não à toa, a exposição O Mundo Mágico de Escher, em cartaz no Rio até março, explora as instalações interativas e tecnológicas que fazem o visitante mergulhar nesse amplo universo. São ao todo dez instalações nas quais o espectador vivencia o infinito, a repetição e as ilusões de ótica criadas por especialistas em espelhos. Uma das preferidas do público é a sala que inaugura a mostra, conhecida também como Sala de Ames, criada pelo cientista americano Adelbert Ames Jr. Em um pequeno cômodo, com o chão quadriculado, dois visitantes se colocam em cantos opostos. Por meio de ilusão de ótica, um deles parece um gigante e o outro, um anão. Em outras, há o efeito de buraco infinito ou de metamorfose. Em A Casa de Escher, o visitante é convidado a adentrar a gravura Autorretrato em Esfera Espelhada (1935).

Além das instalações, o visitante poderá assistir a filmes que passeiam por quatro obras do artista. “Muito mais que uma exposição tradicional, tentamos fazer uma vivência da obra do artista. Sem perder qualidade, queremos também atrair aquele público que não costuma frequentar espaços culturais”, diz Tjabbes.

Desse universo, surgem hoje citações e homenagens, além de inúmeras reproduções. Em 2009, o estilista britânico Alexander McQueen apresentou estamparia inspirada em suas gravuras, com tons de cinza e linhas repetitivas e delicadas. Chistopher Nolan, diretor do longa A Origem (2010), inspirou-se na gravura Relatividade (1953) para criar o universo de sonhos sobrepostos, onde as escadas infinitas não levam a lugar nenhum. Se demorou a ser reconhecido no século XX, Escher adquire nestes nossos tempos ares de precursor. “Eu não consigo deixar de brincar com as nossas certezas estabelecidas”, dizia o artista.

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