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Apetite de Rossini

por Alexandre Freitas — publicado 02/03/2010 15h42, última modificação 20/09/2010 15h45
Um filé bovino, foie gras, molho madeira com trufas e voilà: Tournedos Rossini.

Um filé bovino, foie gras, molho madeira com trufas e voilà: Tournedos Rossini.

Li em algum lugar que Rossini abandonou a carreira de compositor para se tornar cozinheiro. Parece que essa foi uma maneira de justificar os misteriosos 36 anos de silêncio do gênio. Mas, que Rossini cozinhava bem e era um gourmand, isso é um fato.

Quando o barão da ópera Cenerentola (Cinderela) começou a cortar umas verduras e a cantar, imaginei o gordo Rossini inspirando-se enquanto preparava seus quitutes. Música tem dessas coisas. Colocamos o significado ou o símbolo que queremos. Pode ser metáfora de tudo e, talvez, daí seu vigor e mistério.

A digestão da música do Rossini cômico pode ser mais fácil que a do seu filé com patê de fígado de ganso. É popular, mesmo não sendo. Exceção para o Fiiiiigaro, evidentemente. Experimentamos uma de suas óperas cômicas e gostamos ou não. De imediato. Não é preciso grandes pré-requisitos, além de gostar de ouvir muitos melismas, também chamados de coloratura, sequências de notas sobre uma mesma vogal. Eu gosto muito. Principalmente quando bem feitos, o que não é nada evidente. Como também não o são a grande extensão vocal exigida por Rossini, os difíceis saltos entre as notas, os andamentos acelerados, a leveza desejada e, além do mais, o ar de facilidade com que tudo deve soar. Ao mesmo tempo, se voltarmos toda atenção para os virtuosismos vocais e a quantidade de notas, a digestão começa a ficar mais difícil.

Mas ópera não é recital de canto. Música, texto, cenário, figurino, luzes e atuação formam um todo e fazem da ópera um gênero surgido da contradição. Mas que, como diz Isabelle Moindrot, é também arte de união, guiada pela necessidade de coexistência. E isso apesar (e devido) à tensão interna que nasce quando reunimos diferentes artes e fazeres. E essa tensão, quando ressuscitada ou reativada por hábeis diretores cênicos e musicais, faz com que uma ópera encontre uma ressonância com o público, sempre tão heterogêneo e cheio de pré-conceitos e expectativas multicolores.

Irina Brook, filha do ilustre diretor de teatro e cinema Peter Brook, soube ajustar a performance teatral à performance musical na montagem de Cenerentola, à qual tive a sorte de assistir, na última quinta-feira, no Théâtre des Champs Elysées. Os floreios, os malabarismos vocais e as repetições de cadências eram elementos tão importantes quanto a movimentação cênica, os figurinos e todos os outros códigos utilizados para renovar a força de uma obra coesa, em toda sua diversidade. E o mais importante: em uma dosagem que permitiu que Cenerentola fluísse, sem a saturação na qual o próprio gênero parece sempre sujeito a sucumbir.

O diretor musical Michael Güttler, a Cinderela representada por Vivica Genaux, o príncipe por Antonino Siragusa, o barão Pietro Spagnoli, as irmãs malvadas Carla Di Censo e Nidia Palácios, o fantástico valete Stéphane Degout, além de Irina Brook, claro, fizeram de Cenerentola um banquete digno de Rossini.

Três momentos de uma representação da mesma montagem estão disponíveis na rede:
http://www.youtube.com/watch?v=hFTG-xTmlmU
http://www.youtube.com/watch?v=8hxWTPowvcE
http://www.youtube.com/watch?v=wQEMI_J5dU0