Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Apenas uma questão de grana

Cultura

Refogado

Apenas uma questão de grana

por Marcio Alemão publicado 09/09/2012 09h37, última modificação 09/09/2012 09h37
No mundo da gastronomia brasileira, sobreviver sem uma forte ajuda financeira é uma quimera
dinheiro

Ilustração: Ricardo Papp

Eu sei lá como essa história toda vai terminar. O que eu sei é que a trama do meio da história, o ato 2, não vai bem, não tem muita graça, é aborrecida, lembra um enorme clichê. Ah, sim! Podemos imaginar um final feliz. Sempre é possível. Acho que não estarei por aqui para ver essa possibilidade triunfar. Entramos agora na mesma linha: falo sobre a possibilidade de você sobreviver no mundo da gastronomia sem uma forte ajuda financeira.

O que eu entendo sobre isso é quase nada. Tenho lido, tenho visto, tenho conversado. O pasteleiro sem apoio está morto. Comida de primeira, aproveitando só 50% do peixe, sem financiamento? Esquece!

Alugar um ponto nobre? Você vai trabalhar os primeiros dez dias do mês só para pagar o aluguel. Confissão de um amigo, um grandão da área: “Queria ser a proprietária dessa casa onde tenho o restaurante. Trocava com ela hoje”.

Cumprimento outro colega que vai bem no ramo. Alegria, alegria, até que aos poucos vou percebendo que no bolso dele tem ficado pouca coisa. São muitos os que participam de todas as casas e, me confirma ele, se não fosse desse jeito, não teria dado sequer o primeiro passo.

Isso nos leva para um clichezão mencionado: ele sonhava ter um pequeno restaurante, no bairro onde nascera. Conheceria a maioria dos clientes, teria crescido com  eles. Sua mãe era uma habilidosa cozinheira, assim como sua avó havia sido. Mas ele foi valente, foi além, saiu do bairro, do país, ralou cá e lá pelas cozinhas do mundo e voltou cheio de ideias. O resto da história é chato. É o momento de pressionar a tecla  fast forward.

Ele achava que a casa poderia ser uma das casas do bairro, adaptada para um restaurante familiar. Deu de cara com as 767.345 restrições e exigências das secretarias que zelam pelo bem-estar da população 24 horas por dia. Conseguiu dar conta de apenas 767.344, e, a partir de então, tornou-se vítima de fiscais mal-intencionados. São raros, mas ouvi dizer que existem.

Os moradores locais, os velhos colegas de infância, não estavam mais interessados nessa bobagem caseira. Preferiam o projeto arquitetônico e a localização de dezenas de outros restaurantes. A comida dos outros não era tão boa como a dele, mas quem estava interessado em simplesmente comer bem?

Ponto novo, arquiteto, assessoria de imprensa, cardápio novo. Somou A com B e concluiu: se não aparecer alguém com grana, não vai rolar. Apareceu e ele cresceu, triste, sonhando todas as noites com o velho restaurante.

O que quero dizer é o seguinte: tá muito confusa essa questão da grana. Cinco dias em Campos do Jordão no fim do ano, 12 mil reais. Sete em Budapeste num hotel do século XIX, com aquelas termas de cinema, 4 mil reais. Ah, claro, em Campos oferecem três refeições por dia. Campos vai lotar. Todos os amigos do cozinheiro de bairro estarão lá.

Tenho um velho fogão DCS. Bem velho mesmo. Ainda queima bem, mas apresenta sinais de decomposição. Uma das bocas teve o cano de acesso destruído pela ferrugem. Peço um orçamento. E o técnico me informa que outras coisinhas precisam ser reparadas. Que venha, pois, o preço de todas as reparações necessárias. E veio: 1.175 reais. É o preço de um bom fogão novo. E eu me pergunto: o que leva uma empresa a crer que o mundo é composto basicamente por imbecis?

Provavelmente, a constatação de que o mundo é composto basicamente por imbecis. Vamos para Campos, vamos pagar preço de lagosta por arroz com feijão malfeito e vamos usar camisetas com bichos gigantescos: cavalos e jacarés e alces.