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Bravo!

Apenas o primeiro

por Orlando Margarido — publicado 25/02/2012 15h47, última modificação 25/02/2012 16h42
Tão Longe e Tão Perto fala sobre um menino que perde o pai no 11 de setembro, primeira grande produção que aborda o tema
tom hanks

Thomas Horn e Tom Hanks, emoção despudorada. Foto: Reprodução

Apenas o primeiro
Tão Forte e Tão Perto
Stephen Daldry

Como aconteceu no passado com Filadélfia e o tema da Aids, curiosamente com Tom Hanks no papel central, é provável que no futuro Tão Forte e Tão Perto venha a ser lembrado apenas como o primeiro filme de grande produção a dramatizar outro assunto delicado, o 11 de Setembro.

Entenda-se drama como apelo de ficção, já que na vertente documental houve produções a respeito, e boas. Este filme de Stephen Daldry, estreia nesta sexta 24 e baseado em livro de repercussão escrito por Jonathan Safran Foer, sofre de síndrome similar àquele dirigido por Jonathan Demme, nos anos 1990. Contorna o fato em si com uma emoção despudorada e lança mão de um recurso de narrativa, diga-se a calhar infantil, para conquistar o apoio do espectador para o que afinal, mais cedo oumais tarde, precisa ser tratado nas telas.

O estratagema tem nome, Oskar. Ele é um garoto pré-adolescente (Thomas Horn) que perde o pai (Tom Hanks) no desabamento das torres. Tipo por natureza centrado e adepto de jogos de memória, Oskar fecha-se ainda mais em suas fantasias ao descobrir uma chave guardada nos pertences do pai, com uma única indicação de um sobrenome. Passa a perambular por Nova York acreditando que quem atender pela designação poderá mostrar-lhe a serventia da chave.

Seu companheiro na jornada será um estranho que habita provisoriamente a casa de sua avó (o veterano Max von Sydow), e não fala, apenas escreve frases no papel. A persistência de Oskar tem rastros claros do Billy Elliot de Daldry, o garoto que queria dançar. Mas ainda ali havia uma condição genuína na conquista de um sonho, independente de contextos ou pressões de uma época, enquanto aqui tudo parece ser guiado por muita cautela para não se ousar desafiar um momento que se impõe compungido.

Retrato do incômodo

Ai WeiWei - Never Sorry
Alison Klayman

No início de Ai WeiWei – Never Sorry, o documentário exibido no recém-encerrado Festival de Cinema de Berlim, o artista chinês sai apressado de seu estúdio nos arredores de Xangai e antes de entrar no carro olha para os dois lados como se preocupado em ser visto.

A tensão, será sabida depois, é quase automática e dispensável, pois há câmeras na rua para controlar seu cotidiano. Um furgão também fica estacionado por perto. “Foi essa a situação de um artista perseguido e prisioneiro dentro de seu próprio país, e estamos falando de um território continental. Isso me fez crer que o engajamento e a arte são indissociáveis no caso de WeiWei”, explica a americana Alison Klayman, realizadora do filme, a CartaCapital.

Jornalista independente de 27 anos, baseada na China Klayman interessou-se pela trajetória de WeiWei em 2008, quando o artista estabeleceu uma articulada rede de solidariedade por causa do terremoto de Sichuan. Seu blog era o centro de informação para familiares e amigos das vítimas, boa parte crianças.

O próprio levantamento de imagens e nomes dessas crianças tornou-se uma obra de arte mais tarde e incomodou o governo a ponto de obrigar o artista a encerrar o espaço na internet. Começava ali um período de perseguição a WeiWei que culminou com a demolição de seu estúdio e ainda não teve um ponto final.

A figura-chave de protesto por liberdade na China está sempre ligada no filme ao expoente de um universo contemporâneo da arte. “Comecei o trabalho achando que ele procurava desestabilizar, de propósito, as regras ao seu redor. Mas, muitas vezes, são essas regras que o obrigam a uma atitude”, diz Klayman. Uma dessas situações ocorre quando WeiWei é detido de forma leviana por suposto desacato. Ele então filma a ação e a registra no Twitter. A ocasião tornou-se mais tarde uma performance em sua maior individual realizada até hoje em Munique.

Embora todo o tempo nos lembre da atuação politizada de WeiWei, o filme pontua seus principais momentos artísticos, da contribuição ao estádio Ninho de Pássaro para as Olimpíadas ou a mostra So Sorry, em Munique. Um período importante de sua atuação é a experiência em Nova York, entre 1983 e 1993, com colegas como o futuro cineasta Chen Kaige, Allen Ginsberg, Andy Warhol e Joseph Beuys.

A estadia é detalhada pelas fotos realizadas por ele expostas até 18 de março na Martin Gropius Bau de Berlim. São 220 trabalhos entre um material de 3 mil ainda não de todo pesquisado. O documentário vem se juntar a esse enquadramento amplo e de improvável esgotamento do perfil de WeiWei.

Exposição: Expressão rara
Irmgard Longman
De 2 a 30 de março
Galeria Berenice Arvani, em São Paulo

A raridade com que a obra da alemã naturalizada brasileira Irmgard Longman é exposta faz prevalecer a ideia de um esquecimento inerente a tantos nomes que não se estabeleceram como paradigmas da arte local. Mas há uma década, por conta de uma individual organizada no Museu Lasar Segall, a estudiosa Vera d’Horta assinalava que esta artista de 92 anos integrou um seleto grupo de pintores e gravadores sintonizado aqui com o expressionismo alemão a partir dos anos 1920. Com ela, -sobressaíam-se ao reconhecimento público o próprio Segall, Lívio Abramo e Oswaldo Goeldi. Mereceria, portanto, figurar em igual proporção com sua produção de fonte abstrata. Mesmo porque duas influências importantes, Yolanda Mohalyi e Henrique Boese, com quem estudou, fechariam um círculo de relações como uma aluna de Segall e o filho de um professor deste último, respectivamente.

Oportunidade de conferir como essa aventura esquecida de uma imigrante se dá na prática acontece de sexta 2 até dia 30 na Galeria Berenice Arvani. Na seleção de quarenta trabalhos, entre guaches e pinturas, tem-se um arco temático e de estilo que vai das naturezas-mortas, paisagens e interiores dos anos 1950 à abstração lírica da década seguinte, até chegar a uma observação pessoal do crescimento urbano de 1970. O interesse por questões existenciais do homem, os conflitos e a violência da grande cidade, típicos da escola expressionista alemã, para lembrar d’Horta, notam-se nas telas com poesia e lirismo e nas cores frias de raros amarelos, laranjas ou vermelhos, segundo o curador Celso Fioravante.