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Antes dos modernos

por Gilberto Maringoni — publicado 17/09/2011 08h58, última modificação 26/09/2011 18h08
Em Entre a Vanguarda e a Tradição, pesquisadora do cenário cultural paulista aponta clientelismo em políticas de subvenção à arte. Por Gilberto Maringoni

Entre a Vanguarda e a Tradição – Os Artistas Brasileiros na Europa, 1912-1930
Marcia Camargos
Alameda, 463 págs., R$ 65

A historiadora Marcia Camargos dedica boa parte de suas pesquisas ao cenário cultural paulista dos primórdios do século XX. No livro Entre a Vanguarda e a Tradição, fruto de um pós-doutorado em História na USP, ela volta o foco investigativo ao panorama anterior ao Modernismo (e Pré-Revolução de 30).

A Semana de 1922 é usualmente vista como a gênese do que seria a contemporaneidade na cultura de São Paulo. Muito dessa percepção deve-se às ideias difundidas pelos próprios modernistas: o quadro anterior é tido como provinciano, arcaico e ligado ao atraso da vida rural. Nos primeiros 20 anos do século passado, São Paulo abandonou a característica acanhada, de reduzida importância no cenário nacional, e afigurou-se como uma metrópole em expansão. Entre 1900 e 1920, passou de 240 mil para 580 mil habitantes. Desses últimos, 35% estrangeiros. Muito antes da Semana, a cidade já não era um aglomerado de casas e ruas tranquilo.

No livro, Marcia desvenda um aspecto pouco lembrado da trajetória da futura metrópole. Trata-se das políticas de subvenção e formação de uma geração de artistas, 17 pintores e 16 músicos, a receber bolsas para estudar na Europa. Entre eles, Anita Malfatti, Victor Brecheret, Francisco Mignone e Mario Camerini. Tudo se fazia por meio do Pensionato Artístico, mecanismo de subvenções oficiais que funcionou no estado até a queda da República Velha.

No comando da iniciativa estava José de Freitas Valle (1870-1958), senador, aristocrata e dono de luxuosa mansão na Vila Mariana, a Villa Kyrial, onde patrocinava encontros e saraus com a intelectualidade e o meio artístico. Marcia, que já examinou o personagem em obra anterior, lembra que “em uma imbricação entre o público e o privado, típica da época, todo o material concernente ao Pensionato era enviado (...) direto para a Villa Kyrial, que se transformaria em uma espécie de órgão controlador das políticas e das práticas culturais em São Paulo, na Primeira República”.

O que emerge é uma rica obra sobre talento, poder e novo-riquismo. Nas palavras da autora, tratava-se de “clientelismo e filantropia praticada com numerário público”. Naquele tempo, o jogo político estava restrito aos domínios das oligarquias cafeeiras, com rarefeita atmosfera democrática. Apesar disso, implantou-se uma política fundamental para transformar o mundo cultural paulista, agregando não apenas influências e tendências, mas novos padrões de profissionalização e de visão empresarial.