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Cultura

Cariocas quase sempre

Animus arrumandi

por Carlos Leonam e Ana Maria Badaró — publicado 27/01/2011 12h01, última modificação 27/01/2011 16h48
Pior que enfrentar a tempestade de papéis velhos, é tomar a decisão de enfrentá-las. Não há como voltar atrás, nem validar o que, certamente, não serve mais.

Não é fácil manter as coisas em ordem, todas as coisas. Pense, inclusive, nas roupas de cima e de baixo. Se remexermos, acharemos meias esperando em vão o paradeiro de seu par; cuecas frouxas; calcinhas flácidas; camisetas amareladas e rotas; jeans desmedidos; estampas vexatórias; vestidos engordativos; blusas de fibra sintética; gravatas de estimação tronchas. Tudo pedindo um destino.
Mas para organizar a conversa, vamos fechar temporariamente armários e gavetas dos quartos. Fiquemos com os papéis antigos empurrados para uma espécie de arquivo geral particular num quarto de serviço. Repousa o papelório em caixas de sapatos, sacas, plásticos, (des) organizadores ao lado de lâmpadas, fios de arames, barbantes, tomadas, no- breaks, velhos teclados, latas de tinta, sacolas de butiques extintas, um aspirador de pó obsoleto, um ferro de passar quebrado.
 É preciso cuidado se baixar o caboclo arrumador. No meio da papelada pode estar uma folha que merece ser guardada. Depois de algumas surras em filas da segunda via, aprendemos a ser quase obsessivos com alguns documentos. Quantas vezes ao sairmos daqueles calvários cartoriais juramos mudar e nos tornarmos arquivologistas de nossa vida.
O pior é quando, organizados já convertidos, resvalamos nos erros do passado e esquecemos em que pasta enfiamos um determinado recibo, lapso que nos consome, como dantes, horas ou dias de desespero e, quem sabe, mais uma fila de segunda via. 
Mesmo globalizados, ainda precisamos de relés papéis que provem que pagamos, que trabalhamos, que nos inscrevemos, que estudamos, que nos formamos, que nos especializamos, que faturamos, que nascemos, que casamos, que nos divorciamos, que ainda estamos vivos, que nos ferramos e que morremos.
Se morrermos, mais um papel dirá, inclusive, por que já não somos. Mas não será esse o nosso derradeiro papel. O documento precisará engrossar a pasta de algum parente ou amigo. Os amofinados precisarão guardar o atestado de nossa verdadeira falência múltipla, pois se formos defuntos do bem nossos comprovantes não interessarão mais a ninguém.
O mais difícil não é encarar o armário e escolher o quê jogar fora, nem empoeirar-se com o passado e decidir, por exemplo, se aqueles escritos em folhas embeiçadas poderão ainda, um dia, virar um best-seller, hein? Melhor rasgar ou digitar a obra-prima?
Pior que enfrentar a tempestade de papéis velhos, é tomar a decisão de enfrentá-las. Não há como voltar atrás, nem validar o que, certamente, não serve mais.
A faxineira, que é um primor em organização, é capaz de dar meia-volta quando vir o chão intransitável. Na medida de nosso atordoamento, os papéis e seus invólucros já se espalharam em pilhas a serem transpostas.  E se nem nós sabemos, como a diarista saberá o que ali é, burocraticamente necessário e emocionalmente reciclável?  Agora a tarefa é inadiável e intransferível. E é preciso chegar ao fim até antes de amanhã.