Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Amor livre e emancipação na Revolução Russa

Cultura

História

Amor livre e emancipação na Revolução Russa

por Marsílea Gombata publicado 10/04/2014 08h48
No livro "Mulher, Estado e Revolução", historiadora norte-americana afirma que a sociedade bolchevique colocou em prática ideais ainda almejados nos dias de hoje
Reprodução / Boitempo
figura livro 2.png

Celebração do 1º de Maio, Praça Dvortsovyi, Petrogrado, 1917

Antes mesmo da revolução sexual dos anos 60, a ideia de amor livre já rondava a sociedade russa. Em 1917, quando os bolcheviques chegaram ao poder, o norte de uma sociedade mais igualitária passava também por questionar a monogamia, emancipar e dar direitos iguais às mulheres, que deixariam as tarefas domésticas para alcançar condições materiais semelhantes às dos homens. É o que mostra o livro Mulher, Estado e Revolução, recém-lançado pela editora Boitempo. Nele, a historiadora Wendy Goldman explica como a Revolução Russa e seus frutos modelaram os eventos do século XX de maneira tão profunda a ponto de seus ecos ressoarem até os dias de hoje.

Segundo Goldman, especialista em história da Rússia e da União Soviética, apesar de o stalinismo e as forças repressoras terem ajudado a esvaziar o que era inicialmente a revolução e seu significado, o grande experimento soviético tem muito a ensinar. Wendy combina história política e social para recuperar tanto os ideais debatidos por juristas e políticos, como também o cotidiano de operárias e camponesas 100 anos atrás. "Os bolcheviques lutavam para que, sob o socialismo, a instituição ‘família’ definhasse; para que o trabalho doméstico não remunerado das mulheres fosse substituído por lavanderias, creches e refeitórios comunitários; para que o afeto e o respeito mútuos substituíssem a dependência jurídica e financeira como base das relações entre os gêneros. Uma geração de legisladores soviéticos se empenhou em concretizar essa visão e, como parte dela, em 1920, legalizaram o aborto, que passou a ser considerado um serviço público e gratuito", lembra Goldman em um trecho do livro.

“Quase um século se passou, e ainda lutamos por essas mesmas coisas em diferentes regiões ao redor do mundo. Mesmo nos Estados Unidos, apesar de o aborto ser legalizado, existe um movimento para torná-lo ilegal novamente. Então, as mulheres são obrigadas a lutar para exercer um direito que lhe é seu”, disse, em entrevista a CartaCapital, a professora da Carnegie Mellon University (Pittsburgh, EUA).

Mas por que saber como pensavam os russos em relação ao papel da mulher na sociedade? A ideia, segundo Wendy, é aprendermos com os erros do passado para ir adiante na luta por aquilo que ainda precisa ser modificado. A tentativa não é de hoje. Inspiradas pela Revolução Russa, gerações sucessivas, como a da luta de trabalhadores industriais, de rebeliões camponesas dos anos 30, da resistência antifascista da Segunda Guerra, dos movimentos anticolonialistas, das revoltas estudantis dos anos 60 e 70, e dos mais recentes protestos bebem da fonte bolchevique, segundo Goldman.

Repetição. Logo no início de sua pesquisa, Goldman se deu conta de que a dinâmica entre homens e mulheres na sociedade patriarcal russa se refletia na própria política e nos núcleos que se diziam progressistas. "Os homens faziam longos e intensos discursos nos encontros; as mulheres falavam menos e com menos confiança. Os homens pareciam ter o domínio de importantes textos teóricos; as mulheres ficavam menos confortáveis com a teoria e em demonstrar suas habilidades intelectuais. Resumindo, as relações de gênero entre jovens radicais, em última instância, eram uma réplica do que acontecia na sociedade como um todo", lembra no livro.

A explicação, segundo ela, reside em raízes antropológicas. “Creio que a mulher, de modo geral, foi treinada socialmente para dar apoio ao homem. Historicamente não é permitido a elas falarem livremente, serem firmes ou darem passos de maneira independente”, analisa. “Na Rússia de 1917, era difícil para as mulheres sentirem que tinham igualdade política dentro do Partido Comunista ou nos sindicatos. Elas se viam diante de obstáculos à igualdade com os homens. E, se formos reparar, lidamos com esse legado ainda nos dias de hoje.”

Na Rússia do início dos anos 20, as mulheres iam ingressado na força de trabalho, mas ainda eram responsáveis por criar os filhos, cozinhar e limpar a casa. As responsabilidades domésticas impediam-nas de ingressar nos domínios públicos do trabalho, da política e de projetos criativos em pé de igualdade com os homens. Segundo os bolcheviques, para quem o capitalismo jamais seria capaz de trazer uma solução para a dupla jornada das mulheres, somente o socialismo resolveria a contradição entre trabalho e família. A ideia era que, sob o regime socialista, o trabalho doméstico fosse transferido para a esfera pública, explica o livro: “As tarefas realizadas individualmente por milhões de mulheres não pagas em suas casas seriam assumidas por trabalhadores assalariados em refeitórios, lavanderias e creches comunitários. (...) A cozinha particular seria substituída pelo refeitório público. A costura, a limpeza e a lavagem, assim como a mineração, a metalurgia e a produção de maquinário, se transformariam em ramos da economia do povo.”

O próprio Lênin escreveu repetidas vezes sobre a necessidade de socializar o trabalho doméstico, já que o via como “o mais improdutivo, o mais selvagem e o mais árduo trabalho que a mulher pode fazer”. Assim, contra a atividade que descreveu como banal, improdutiva, torturante e atrofiante, ele argumentava que a verdadeira emancipação da mulher deveria incluir não apenas igualdade perante as leis, mas também a transformação do trabalho doméstico em trabalho socializado.

No entanto, o que levaria à maior independência da mulher e à consequente facilitação do divórcio esbarrou em condições materiais. “Quando as mulheres vão para as fábricas e começam a fazer o trabalho dos homens, se veem em meio à contradição de não conseguir cuidar de seus filhos. Isso faz muitas começarem a se opor ao divórcio facilitado porque não tinham como sustentar sozinhas a família”, observa Goldman.

O livro, que retrata as experiências da libertação da mulher e do amor livre na União Soviética de 1917 até 1936, quando o regime já se encontrava sob o controle da burocracia stalinista, analisa o difícil embate entre vida cotidiana e os ideais de uma sociedade justa. Não apenas o divórcio sofreu um revés. Uma década depois, com a chegada de Stalin ao comando, a legalidade do aborto também foi revogada.

Como, então, colocar em prática valores que desejamos ver implementados em uma nova sociedade? Como devem ser as novas relações entre homens e mulheres? É possível haver liberdade para homens e mulheres sob condições de desemprego e discriminação em um universo patriarcal? Para Goldman, a resposta é “não”. “Para se ter liberdade e liberação sexual é preciso haver primeiro condições materiais igualitárias. Isso significa as pessoas poderem se manter por elas mesmas, serem economicamente independentes, conseguirem sustentar seus filhos, terem livre acesso ao controle de natalidade e ao direito de abortar, ao mesmo tempo em que possam vender sua força de trabalho”, observou. “Para ideias libertárias serem exitosas, temos de ter bases materiais. Se a mulher não for capaz de se sustentar, de criar seus filhos e ainda tiver de cuidar da casa, então esses ideais não significarão nada.”