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Amazônia fluvial

por Gianni Carta publicado 26/07/2010 12h09, última modificação 25/10/2011 13h37
Documentário segue o ritmo dos caudalosos rios da floresta e discute a importância da água

Documentário segue o ritmo dos caudalosos rios da floresta e discute a importância da água

 Um senhor “muito bem-apessoado” chega às margens do rio Amazonas e pergunta a um canoeiro quanto custa levá-lo ao outro lado. Dez reais, retruca o canoeiro. “Isso é muito pouco, vou lhe dar 20 reais”, diz o elegante  senhor. “Você tem de aprender a ganhar dinheiro.” O canoeiro concorda com o “doutor”. Ao perceber a humildade do canoeiro, o doutor aproveita para perguntar se ele já foi ao cinema. “Não, nunca.” Estarrecido, o homem da cidade lhe diz que em cinemas passam filmes sobre outros países, “coisas maravilhosas”. E por não ter ido ao cinema, argumenta o senhor, o canoeiro perdeu a vida. A canoa zarpa. Um vento forte começa a bater. Presságios de uma violenta tempestade. “Moço, o senhor sabe nadar?”, indaga o canoeiro. Resposta negativa. “Pois o senhor vai perder a vida agora.” 

 A anedota acima é contada pelo fazendeiro Armando em Estradas d’Água, documentário de Augusto Contento lançado na quarta-feira 16 na abertura do Festival Brésil en Mouvements, em Paris. E demonstra, segundo o fazendeiro, o seguinte: “Nossa realidade” na Amazônia é diferente daquela dos políticos. Já no início da obra, apresentada anteriormente em festivais na Espanha e na Itália, onde desde o fim de maio tem sido vista em cinemas de várias cidades, Fátima, uma professora, sintetiza: “Rio e floresta são uma coisa só, porque uma depende da outra”.

A decodificação do rio ocorre de forma paralela àquela da floresta: mistérios, riscos, deslumbramentos... Se o rio está “furioso” você tem de aprender a controlá-lo, a conviver com ele. Se está lento, “você vai lento”, em qualquer superfície. O caboclo do Amazonas “está muito ligado nessa mística das águas”.

Se rios e florestas se confundem, o mesmo acontece entre o homem e a natureza. Ou entre o homem e a cidade. Esse é o fio condutor dos quatro documen-tários do italiano Contento realizados no Brasil, onde viveu vários anos. As estruturas de Ônibus (2006), Tramas (2008) e Estradas Transparentes e Estradas d’Água (2009), produzidos por Giancarlo Grande, são o território. E o território, nas palavras de Contento, de 37 anos, seria uma base para “traçar personalidade e características do indivíduo que o habita e o modifica com o seu caminho e seus hábitos”.

Esses land films, afirma Contento, “esboçam um retrato falado do homem e de sua época”. E viajar “encanta” Contento “porque reproduz o sentido primário do efêmero destino humano: partir, atravessar paisagens diferentes sem nunca chegar a um verdadeiro destino, a uma conclusão”. Não é para menos que ele é descrito como “cineasta de fronteira”. (Ou deveria ser sem fronteiras?) Para ele, barcos, ônibus e outros meios de transporte – a partir dos quais filma – “são mundos em miniatura, nos quais se concentram as características de nossa sociedade”.

Filmar com câmera digital a partir de meios de transporte singrando por rios, ou explorando ruas, rodovias ou ferrovias, cria situações inesperadas. Para realizar Estradas d’Água, a jornalista brasileira Kênya Zanatta fez uma vasta pesquisa e preparou uma série de entrevistas. No entanto, acontecimentos imprevisíveis foram ditados pela viagem. E, por vezes, nem tudo correu às maravilhas nos quatro meses durante os quais a equipe ziguezagueou pela região (assim como os filmes, a equipe não crê em percursos lineares). Grande, o produtor, lembra que o calor insuportável numa viagem pelo rio Tapajós forçou a equipe a cancelar a filmagem.

Contento: “Não sou eu quem impõe a minha direção, mas consigo manter a peculiaridade do meu olhar mesmo deixando-me guiar pelos eventos”. Seu sistema de filmagem eclético, envolvendo diferentes tecnologias, lhe dá um arsenal de armas para lidar com as situações mais diferentes. A câmera de vídeo de um celular “mostra uma visão imprecisa, indefinida e fugaz de um adolescente de hoje”. Já uma Super-8 revela “a visão ingênua e infantil de uma recordação”. O digital lhe dá a “possibilidade técnica de filmar em espaços reduzidos, como barcos amazônicos. E de filmar muito e de maneira leve, ágil, percursos imensos”. Como conclui o cineasta, o digital, e esse é um fator essencial, lhe permite fazer filmes com orçamentos baixos. E com total liberdade, tanto criativa quanto produtiva.

A agilidade das tecnologias de Contento é palpável em Estradas d’Água. Redes de várias cores – rosa, brancas, verdes, marrons – saltam aos olhos. O rio, ora denso, marrom, fica transparente e espelha árvores gigantescas de cabeça para baixo. Barcos deslizam rio afora, enquanto imagens de folhagens desfilam com rapidez, por vezes propositalmente estouradas, fora de foco. Em seguida, vemos nítidos panos tremulantes de barcos, palafitas no horizonte.

As expressões das pessoas que languidamente meditam em cima das redes são marcantes. Olhares perdidos, perspicazes. A câmera de Contento é atenta aos detalhes. Captura um homem que fala ao celular num posto de abastecimento flutuante. Outro está de costas no convés de um barco, os mastros apontam para o céu. Homens preparam almoços em grandes panelas nos barcos. Outros esguicham água no próprio corpo no convés de um barco. Porcos mortos num porto, às margens do rio.

Mas, se as imagens do filme são esperadas e inesperadas, existe uma preocupação em Estradas d’Água em desvendar o que o cidadão comum pensa da política oriunda de Brasília em relação à Amazônia. Uma arqueóloga (pena que os nomes dos entrevistados só aparecem na primeira matéria), Denise, fala sobre as ações positivas e negativas provocadas pelo homem na biodiversidade da região. O geógrafo Ricardo discorre sobre a fundamental necessidade de políticas ambientais comuns nos países por onde se esparrama a Floresta Amazônica.  

Fátima, a professora, argumenta: “É um mito que a Amazônia é a terra da água”. A água dos rios não é potável. Os igarapés estão secando. Comunidades de certas aldeias têm de caminhar até 4 quilômetros para conseguir água para beber. A água está sendo privatizada. Derrubam terra sobre os rios, agora poluídos. “O grande propósito é essa privatização dos espaços hídricos.”  A água, nos diz Marli, trabalhadora social, “é uma questão política”. O povo da região não tem acesso à água potável. Nem dinheiro para comprar garrafas de água mineral. Armando diz que o ouro, outrora fonte de renda, é a água. “E a água vai acabar.”

Eis Rosa, falando de um barco. Dois dias depois que chegou em Manaus, cercada de rios, sua tia lhe pediu para ir pagar uma conta num banco. “Eu chorava como uma criança. Não sabia onde pegava o ônibus, quanto pagava, como passava naquela roleta que tinha e tem até hoje. Para mim, aquilo tudo foi apavorador.”

Pergunto a Contento o que ele traz de novo, além da percepção de um europeu, para um documentário sobre o Amazonas. Essa pergunta, retruca, lhe foi feita inúmeras vezes no Brasil. “Parecia quase uma reivindicação nacionalista.’’ Ele diz sentir-se um cineasta de fronteira, porque “busca superar as barreiras culturais e os preconceitos de um certo tipo de território...”

E completa: “A nacionalidade, para mim, não é uma virtude nem uma lente de alta resolucão pela qual (posso) observar uma realidade mais elaborada e significativa”. Segundo o cineasta, a nacionalidade “indica somente a proveniência de um indivíduo, não enumera seus dotes”. É limítrofe quem pensa poder avaliar a obra de arte de um autor por meio de sua biografia. Vale a pena ver Estradas d’Água, de Augusto Contento.