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Crônica / Matheus Pichonelli

Alucinação

por Matheus Pichonelli publicado 25/05/2015 14h13, última modificação 11/06/2015 17h13
A ressaca de quem dormiu e acordou sem saber se os absurdos do noticiário eram sonhos, paródias ou delírios da vida real
Cena do filme Inland Empire
Estrada

Por aqui, não temos táxi ao estender a mão. É tarde para tirar as pessoas da cama. Os amigos que moram perto estão longe. Não há trilhos subterrâneos. O medo de não conseguir voltar passeou por um instante e se instalou

Acordei cedo, de novo, depois de ter dormido tarde. De novo. Passei parte do dia anterior num limite entre o desconforto e o pânico por estender a linha de um compromisso até o horário do último ônibus.

- Se ele passar, não volto pra casa.

Por aqui, não temos táxi ao estender a mão. É tarde para tirar as pessoas da cama. Os amigos que moram perto estão longe. Não há trilhos subterrâneos. O medo de não conseguir voltar para casa passeou por um instante na minha cabeça e se instalou. Parecia um medo domesticado, sobretudo quando alguém me ofereceu uma carona para dali a duas horas. Aceitei.

Esgotado por um dia que começara cedo e terminara tarde, cheguei a salvo em casa com a fome de todos os mundos. Deitei com a calça e a camisa do dia todo após comer feito um lanche esquentado no microondas. Parecia caminhar na água e não tinha controle sobre o que eu falava, naquela última gota de combustível garantido pela última xícara de café do dia.

As pilhas de livros e revistas de novo se acumulam na mochila, e não há dia em que não receba convites e sugestões e dicas para engordar a pilha de coisas que preciso ler para poder escrever para poder dizer com mínima clareza o que me propus a falar.

O café é a âncora que me impede de jogar a mochila para longe. Ele me garante a sobriedade quando o corpo pede anestesia, e me lembra diariamente que, a certa altura da vida, não tem nada mais vergonhoso do que ser incapaz de falar sobre Aristóteles ou qualquer filosofia por mais de dois minutos – em breve, me avisa o jornal, haverá na banca uma coleção de obras de grandes filósofos, aqueles que prometemos ler ao fim da adolescência. Desta vez não temos desculpas a não ser a pilha de leituras atrasadas numa mochila já devidamente forrada e o medo de chegar em casa e descobrir que o filho de dois anos se tornou um homem enquanto estávamos ocupados com o ônibus e outras leituras.

E se o ônibus não passar? Como volto pra casa?

Ninguém pensa na Retórica de Aristóteles quando teme não voltar pra casa. Você pode chegar a salvo, mas o temor fica instalado. É por isso que, na segurança da sala, bastou fechar os olhos para voltar ao ponto onde perdi a condução. No sonho, abordava todo mundo que passava e me parecia familiar: “Pra onde você vai? Posso ir com você?”. Mendigando quilometragens, quando notei estava sozinho no Parque do Ibirapuera. Agradecia a carona, mas fazia um ano que morava a 90 quilômetros dali.

Eu conheço esse pânico. É o pânico de não ter controle do deslocamento. É o pânico da impossibilidade de seguir sozinho. De começar milhões de tarefas e não terminar nenhuma. De ficar em dívida com as gentilezas de quem altera a própria rota para não te deixar dormir na rua. Como é dormir na rua?

Estava em casa, e já não sabia se sonhava ou se apenas me desesperava. “Minha alucinação é suportar o dia a dia, meu delírio é a experiência com coisas reais”. A música tocava como um despertador, e eu seguia em dúvida se cheguei em casa nadando como no sonho da noite anterior.

“Parabéns, você nadou dois quilômetros”, disse a professora ao fim da aula de quarta-feira, e eu mentalmente olhava para a rua tomada de automóveis e calculava até onde aquelas braçadas me levariam. Sem muro entre sonho e realidade, passo agora boa parte do dia, geralmente à noite, com água até o teto da minha casa. Era como mergulhar num filme de David Lynch.

A pior ressaca é quando não bebemos nada no dia anterior e ainda assim acordamos confusos.

Eu reconheço esta confusão. É o delírio da experiência de coisas reais de que me fala a música. É o pânico de não saber se eu li o que li e se o que li estava no site de parodias ou no site dedicado à vida real. O ministro do Supremo é ou não é a favor da família? É ou não é a favor da poligamia? O investigado morto está vivo? O investigado vivo está morto? É sério que o jovem esfaqueou a vítima na zona sul? É sério que se ele for também esfaqueado todos poderemos pedalar em paz? É sério que os jovens ginastas estavam apenas brincando? É sério que toda boa amizade resiste a qualquer ofensa? É sério que a garota vomita e tem vergonha pela violência sofrida no banheiro da escola? É sério que as jovens gaúchas expostas na rede deveriam ser mais cuidadosas? É sério que o bastião da moralidade traiu o Brasil? O que é sério? O que é vertigem?

Com o que sonhei ontem à noite?

Como acordei e vim parar aqui?

Pensava em tudo enquanto olhava, já no dia seguinte, o ponto de ônibus da noite anterior. Já fui, já voltei, já sonhei, já li as notícias, mas não tenho certeza se já dormi. O sinal abriu, os carros passaram. O sinal fechou e os carros me deram passagem. No canteiro, segui parado, as unhas roídas, crente de que já havia completado a travessia.