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Cultura

Crônica

Almeidinha & Os Embargos Infringentes

por Matheus Pichonelli publicado 17/09/2013 10h39, última modificação 18/11/2014 21h52
Ícones do rock rebelde, Lobão, Roger e Dinho Ouro Preto se unem ao nosso protótipo do homem comum para protestar, nos palcos, contra tudo isso que está aí
Reprodução/Family Guy

Não foi por acaso que Almeidinha escolheu o dia 18 de setembro de 2013 para o lançamento oficial da banda “Almeidinha & Os Embargos Infringentes”. Inspirado pelo julgamento do “mensalão”, que nesta data pode decidir o futuro do “maior caso de corrupção da história do País”, o ex-protótipo do homem comum resolveu abandonar os memes no Facebook e passou a compor as próprias canções de olho no estrelato. Não precisou sair do sofá para atrair a atenção da trindade santa do rock rebelde, do rock moleque, do rock da malemolência: Lobão, Roger e Dinho Ouro Preto. Foi amor à primeira vista. Agradou tanto que o trio resolveu se unir para subir ao palco com o ídolo-fã.

Com exclusividade, Almeidinha revelou como a banda deve subir ao palco para celebrar ou espernear conforme o resultado do julgamento. Caso o ministro Celso de Mello decida sepultar as chances de José Dirceu e companhia, os integrantes do grupo subirão de mãos dadas para cantar que “hoje é o dia de um novo tempo que começou”.  Será uma dupla manifestação política: a celebração da vitória do bem contra o mal e a adesão oficial ao movimento #Acaba2013.

Caso o ministro dê sobrevida à patota, o número será outro. Numa versão local do Kiss, Os Infringentes devem subir ao palco com as caras pintadas e o nariz de palhaço ao som de Que País é Este, clássico da música rebelde brasileira que consegue rimar Constituição com Futuro da Nação. Dinho Ouro Preto tem um discurso preparado: “Cara, eu acho que, cara, essa coisa da política, cara, é uma nojeira, cara, como pode, cara, tanta gente roubando, cara, é um país de ignorante, cara, ninguém valoriza a cultura, cara, ninguém fala coisa com coisa, cara, a gente paga nossos impostos, cara, e, poxa, cara, olha quanta sacanagem, cara, Bolsa Família pra pobre ignorante, cara, que não sabe conjugar um verbo, cara, enquanto a gente se ferra, cara, eu quero comprar tênis descolado, cara, mas os impostos, cara, obrigam a gente a viajar pra fora, cara, encher a mala de produto importado, cara, porque aqui, cara, a gente é obrigado a pagar impostos, cara, e não tem direito a tênis colorido, cara, onde já se viu isso, cara, olha esse Sarney, cara”.

Independentemente do resultado da votação, Lobão promete subir ao palco esperneando. Pretende tocar violão apenas com o dedo do meio acionado, para protestar contra tudo isso que está aí, inclusive o que não está. “Não adianta a gente mudar ministro, presidente, prefeito e o escambau enquanto a gente não se conscientizar de que o Herbert Viana vende mais disco que eu copiando tudo o que eu faço.”

Mais otimista, Roger, o Infringente 3 que se gaba de ter um QI mais alto do que o de Joaquim Barbosa, acredita que o show vai inaugurar um novo momento da política, da música e da humanidade. Com a condenação dos réus, afirma, haverá um constrangimento coletivo que deve mudar os vícios do País, da música, das eleições e da Copa de 2014. “É tudo simbólico. Os motoristas vão deixar de subornar o guarda quando atropelarem pedestres e ciclistas nas ruas. Os empresários vão deixar de registrar as firmas no nome dos sobrinhos de quatro anos. Ninguém terá coragem de comprar ou vender carteira de motorista. Pênalti, agora, só quando alguém for atropelado dentro da área. As pessoas vão deixar de ver Faustão e gincana do Gugu para acompanhar o que rola no STF depois desse julgamento. Acho até que os quarentões que forjam carteiras de estudante para entrar no nosso show vão começar a pagar o que nos devem.”

A certeza de que a Justiça tarda mas não falha é tanta que artista pretende aproveitar o “momento histórico” da politização do rock para lançar futuros hits. Durante a apresentação, ele deve tocar pela primeira vez as músicas “Bandido Bom é Bandido Morto”, "Triste Feminazi" e “Direitos Humanos para Humanos Direitos”, suas primeiras composições desde 1987, quando o presidente era outro, a Constituição era outra, a plateia era outra. “O cantor ainda é o mesmo. Com a mesma idade mental. É o que importa”, conclui.

 

*Em tempo: Agradecemos ao jornalista Victor Sá pela ideia de uma banda com o nome "Embargos Infringentes".