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Alemães lutam para manter Muro de Berlim de pé

por Deutsche Welle publicado 06/03/2013 18h12, última modificação 06/03/2013 18h12
Para opositores, projeto de remoção da famosa East Side Gallery é um atentado contra história e identidade do país

Em 12 junho de 1987, o então presidente norte-americano, Ronald Reagan, fez seu famoso discurso diante do Portão de Brandemburgo. Nele, pediu ao líder soviético Mikhail Gorbachev que desse passos para tornar o Leste Europeu mais livre e acabasse com o símbolo mais visível da Cortina de Ferro. A intervenção culminou nas quatro palavras mais famosas de seu mandato presidencial: "Tear down this wall!" (Derrube este muro).

Quem imaginaria que, passados quase 26 anos, milhares de berlinenses estariam se reunindo para tentar fazer justamente o contrário. Nesta segunda-feira (04/03), cerca de 100 manifestantes conseguiram impedir que operários removessem 23 metros da chamada East Side Gallery, o trecho mais longo remanescente do Muro de Berlim, e um dos pontos turísticos prediletos da cidade. Na véspera, uma passeata ainda maior reunira cerca de 6 mil pessoas, com o mesmo fim.

Com 1.300 metros de extensão, a East Side Gallery é um monumento protegido, mas as autoridades municipais autorizaram sua remoção para a construção de um condomínio de apartamentos de luxo, entre o Muro e o Rio Spree.

Durante o regime comunista no Leste, a área era conhecida como "Faixa da Morte": a polícia da República Democrática Alemã (RDA) tinha autorização para atirar em quem tentasse cruzá-la rumo a Berlim Ocidental. A brecha que seria aberta nesse trecho do Muro, hoje coberto por pinturas de artistas de diversas partes do mundo, facilitaria o acesso dos moradores do futuro condomínio e dos pedestres. A ideia é que uma nova ponte seja erguida sobre o Spree.

Monumento insubstituível

A East Side Gallery atrai cerca de 800 mil visitantes por ano, e é adorada por turistas e berlinenses. Sua autenticidade marca um contraste com outras partes remanescentes do Muro, como o Checkpoint Charlie e o Portão de Brandemburgo, onde atores fantasiados de guardas soviéticos evocam mais lembranças artificiais do que a verdadeira realidade da divisão da Alemanha.

Em Berlim existem, naturalmente, outros pontos que evocam a história da cidade. Mas em várias áreas menos turísticas é fácil andar ao longo da antiga fronteira sem mesmo perceber que um dia um muro esteve ali. A East Side Gallery não é só o trecho mais longo remanescente do Muro – mas também a memória mais tangível.

"O Muro representa para mim a história da cidade, e uma história especialmente brutal que, de outra forma, seria completamente invisível", comenta a moradora de Berlim Mareike Krämer, de 25 anos. "Se o Muro for despedaçado, seu impacto também será feito em pedaços. Por isso este memorial tem que ficar intacto."

Segundo Maria Nooke, vice-diretora da Fundação Muro de Berlim, para os moradores Berlim Oriental, a construção era um símbolo inatingível da opressão comunista. Depois que caiu, era espantoso poder simplesmente transitar de um lado para o outro da fronteira, e ver como haviam estado perto do Ocidente, o tempo todo. A East Side Gallery, afirma, deveria ser uma espécie de testemunho dessas memórias.

"Acho que a antiga área da fronteira, onde corria o Muro, não está aí para ser objeto de especulação imobiliária ou dar lucro à cidade. É uma área histórica, que dividiu a cidade por mais de 28 anos, com importância não só para Berlim, mas para o mundo inteiro. Não se pode simplesmente abrir mão disso para construir uma casa bonitinha", argumenta Nooke.

Valorização imobiliária questionada

O apego à East Side Gallery como um monumento histórico é a principal razão para a mobilização contra sua remoção. Na última semana, com a tentativa de início das obras, jornais publicaram editoriais apoiando os manifestantes e exigindo que as autoridades encontrassem uma alternativa para o projeto.

Os protestos chegam num momento em que muitos berlinenses temem que o boom imobiliário esteja fazendo a cidade perder a alma. A valorização de bairros como Friedrichshain, vizinho à East Side Gallery, já deu espaço a projetos como a casa de espetáculos O2 World e à sede da MTV Europe.

Embora supostamente dê nova vida ao bairro, esse processo de aristocratização também tem encontrado resistência violenta. Em 2011, a remoção dos ocupantes do número 14 da Liebigstrasse, mais famoso prédio ilegalmente ocupado da região, levou a violentos confrontos entre esquerdistas e a polícia. Em meados do ano seguinte, um hotel então recém-inaugurado teve suas janelas quebradas com extintores de incêndio e suas paredes pichadas por radicais da antiaristocratização.

O movimento para manter a East Side Gallery tem se mantido pacífico, apesar de, nos últimos dias, alguns manifestantes terem usado o próprio corpo para impedir que o Muro fosse removido.

A culpa dos outros

Maik Uwe Hinkel, presidente da empresa responsável pelo empreendimento imobiliário, diz que as críticas são injustas e que a decisão de abrir a passagem no Muro foi da própria Prefeitura. Segundo um porta-voz dele, a questão será discutida num fórum aberto no fim deste mês.

Novos projetos imobiliários ao longo do Rio Spree podem ajudar a cidade, necessitada de dinheiro, a arrecadar mais com impostos. E os empreendedores defendem que as novas construções respeitam as características da região e a integridade da East Side Gallery.

Os primeiros planos de construções às margens do rio datam de 1992. Franz Schulz, subprefeito do bairro de Friedrichshain, explica que, após a reunificação da Alemanha, o Muro era visto como uma barreira a ser derrubada o mais rapidamente possível. E diz que foi dentro dessa mentalidade que a antiga área conhecida como Faixa da Morte foi designada para novas construções.

Schulz vinha sendo acusado de não fazer o suficiente para preservar o bairro, mas compareceu ao protesto de domingo diante do Muro. Ele pediu uma saída rápida para o impasse: "Temos que encontrar uma solução rápida, junto ao Senado de berlim, para realizar o que as pessoas aqui estão pedindo", apelou.

Autor: Andrew Bowen (rpr)
Revisão: Augusto Valente
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