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Além do quadro

por Rosane Pavam publicado 17/09/2010 11h45, última modificação 17/09/2010 12h30
Experimentar e raciocinar foram as artes de Duke Lee

Wesley Duke Lee, morto no domingo 12, aos 78 anos, vítima de parada cardíaca decorrente de problemas respiratórios, foi sempre lembrado como o autor do primeiro happening brasileiro, O Grande Espetáculo das Artes, no João Sebastião
Bar da capital paulista, em 23 de outubro de 1963.

É verdade que experimentar era sua razão de ser. Mas a atuação como pintor o tornou especial, embora um dia ele tenha duvidado do próprio sucesso nesse caminho.

Empenhado no estudo da arte em Bolzano, na Itália, depois de ter obras recusadas seguidas vezes pela Bienal Internacional de Arte de São Paulo, Duke Lee ouviu resignado, em 1960, a avaliação do pintor austríaco Karl Plattner:
“Em arte, pintura, eu não sei o que acontece. Você tem a facilidade, métier, até demais, grande fantasia, mas não é quadro. As formas estão lá, rebuscadas às vezes, grande colorido, muita inteligência, mas não é quadro”.

O que lhe disse o amigo, fosse ou não um absurdo, virou sentença, a ponto
de o jovem se oferecer como assistente de direção para Ingmar Bergman. O cineasta o recusou, alegadamente por ele não ser sueco. O brasileiro tinha 30 anos, descendente de norte-americanos por parte de pai, de portugueses pela linhagem materna, estudara de tudo um pouco desde a meninice, mas não sabia o que fazer. Era diferente dos outros. Não ia ao museu para ver arte, mas para “buscar mistério”.

Arte, para ele, talvez fosse um pouco como Plattner suspeitara, algo para além do quadro. Jovem, tomara para si o desígnio do pintor Paul Klee, anotado no diário em 1952, como lembra a historiadora Cacilda Teixeira da Costa em Wesley Duke Lee (Pinakotheke): “Em primeiro lugar, a arte de viver. Depois, como profissão ideal, poesia e filosofia, e como minha profissão real, a arte plástica”. Ele pagava a vida com publicidade. Sua época lhe pedia que fumasse cigarros, bebesse e elogiasse as mulheres. Em arte, seu erotismo não explicitava o sexo, antes a beleza. Ao redor do artista, formaram-se o movimento do realismo mágico e o coletivo Rex.

Sua primeira individual, de 1961, trouxe 57 trabalhos, entre têmperas, gravuras e desenhos. Trapézio, obra ambiental sobre a relação homem-mulher, foi exposta na Bienal de Veneza em 1966. The Helicóptero, arte cinética de 1969, estreou em Tóquio. Durante a Bienal de São Paulo, em 1967, fez com que o pintor Flávio de Carvalho apontasse em Wesley Duke Lee o melhor artista entre os adeptos da “nova figuração”.

Nos últimos três anos, mesmo doente com Alzheimer, evocava a proverbial rapidez
de raciocínio do passado. Em 2008, durante exposição de sua obra, aproximou-se dele uma senhora, que lhe deu parabéns pelo trabalho. “Mas ele ainda não está pronto – retrucou Duke Lee –, e eu não estou com pressa.”