Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Além da Lenda

Cultura

Crônica do Villas

Além da Lenda

por Alberto Villas publicado 09/01/2014 09h41, última modificação 10/01/2014 10h57
Foi uma época em que muitos tinham certeza absoluta de que os duendes estavam por perto. Por Alberto Villas
Diogo Rodrigues Gonçalves/Flickr
gnomo

O gnomo e o anjinho nunca ganharam um altarzinho ou foram considerados seres sobrenaturais lá em casa

A primeira coisa que me chamou atenção assim que coloquei os pés na Terra Brasilis, depois de uma longa temporada fora, foi um adesivo colado no vidro traseiro de um Opala estacionado no aeroporto do Galeão. “Eu acredito em Duende”, estava escrito naquele adesivo plástico meio desbotado pelo sol da Cidade Maravilhosa.

Ficou na minha cabeça porque no meio do caminho, indo pro Leblon, o Opala nos ultrapassou pela direita soltando uma fumaceira preta medonha. Era ele mesmo, aquele Opala cujo dono acreditava em duende.

Alguns dias depois, em Belo Horizonte, vi estacionado na Savassi uma Brasília que também trazia um adesivo mais ou menos parecido: “Eu acredito em Gnomos”. Aquilo me intrigou mas custei a perceber que era uma onda, uma moda que havia tomado conta do país.

Instalado em São Paulo, fomos passear no shopping num domingo à tarde porque já estava me sentindo um verdadeiro paulistano. Falava farol ao invés de sinal, xérox ao invés de xerox e shorts ao invés de short. De repente, fui arrastado pelos meus filhos, pequenos ainda, para dentro de uma loja. Eles ficaram vidrados (era assim que se dizia) com a vitrine daquela lojinha chamada Além da Lenda.

Num piscar de olhos, me vi cercado de duendes, gnomos, bruxinhas e anjos por todos os lados. Tinha o Leo Pumpkin da amizade, o Murah turquinho do sucesso, a Fada Phelicia da sorte, o

Natan elfo dos desejos e o Melinho, o duende cogumelo da prosperidade.

O cheiro de incenso era forte e me fazia lembrar o coroinha da Igreja do Carmo todo domingo espalhando aquela fumaça antes da missa e também dos meus tempos de hippie em Arembepe, na Bahia, ouvindo Araçá Azul. Mas não eram só duendes, gnomos, bruxinhas e anjos que pareciam me encarar naquela lojinha.

Olhava para um lado e pro outro e via espalhados pelas estantes, livros de autoajuda, tarôs, oráculos, santinhos, velas e terços. Meus filhos, encantados, ficaram em dúvida qual bichinho levar pra casa. A menina escolheu um anjinho e o menino um gnomo. Pensei em levar uma bruxinha pra enfeitar minha escrivaninha, mas desisti. Ali dentro da loja mesmo fiquei sabendo que a história da Alemdalenda (tudo junto) nasceu das mãos da sacerdotisa do mundo mágico Heloisa Galvês, a Helô, que desde pequenininha sentia a presença desses seres por perto.

Aos poucos fui percebendo que não eram só meus dois filhotes que estavam encantados com aquele mundo. Na redação do Estadão, onde fui trabalhar,  tinham vários gnomos em cima das mesas, ao lado das máquinas de escrever. Tinha duas colegas que colecionavam os gnomos que vinham dentro do Kinder Ovo. Elas costumavam trocar bonequinhos em pleno fechamento!

Em casa, com o tempo, o gnomo e o anjinho foram parar dentro de um enorme cesto de vime, fazendo companhia aos bonequinhos Playmobil, peças de Lego, aos carrinhos Match Box, a um macaco Murph, ao quebra-gelo e a um Cabeça de Batata.

Os bonequinhos às vezes iam parar dentro da caixa do Forte Apache, lado a lado com aqueles índios americanos de Maria Chiquinha. O gnomo e o anjinho nunca ganharam um altarzinho ou foram considerados seres sobrenaturais lá em casa e sei lá se deram sorte pra gente um dia.

Lembrei-me dessa história hoje porque acabo de ouvir no rádio do carro, Gilberto Gil cantando uma canção daquela época que dizia assim:

Até que nem tanto esotérico assim

Se eu sou algo incompreensível, meu Deus é mais

Mistério sempre há de pintar por ai.

registrado em: