Você está aqui: Página Inicial / Cultura / Alegres barricadas

Cultura

Fotografia

Alegres barricadas

por Rosane Pavam publicado 12/11/2010 11h03, última modificação 17/11/2010 16h15
Em 500 fotos, Robert Doisneau vê Paris sorridente, apesar da tragédia, e monta o teatro da vida comum
Alegres barricadas

Em 500 fotos, Robert Doisneau vê Paris sorridente, apesar da tragédia, e monta o teatro da vida comum. Por Rosane Pavam. Foto: Reprodução do livro "Paris Doisneau"

Em 500 fotos, Robert Doisneau vê Paris sorridente, apesar da tragédia, e monta o teatro da vida comum

Robert Doisneau, francês da interiorana Gentilly, em Val-de-Marne, tinha 28 anos e duas carreiras profissionais, de litografista e fotógrafo industrial, quando, em 1940, foi convocado para servir no Exército de seu país durante a Segunda Guerra Mundial. Não lhe agradava saber que os alemães posavam como donos do Arco do Triunfo, submetendo Paris a seus infortúnios. Doisneau teve uma vida diferente daquela de milhares de parisienses em 1940. Entrou para a Resistência e a fotografou.
Mesmo antes de documentar o cotidiano dos resistentes ao nazismo ele prezava a liberdade. Não acreditava nela exatamente como ideário político, mas como intuição. Só o amor aos livres explicaria a felicidade que sentia ao fotografar na rua.

Para ele, a calçada valia mais do que o interior de um prédio, ainda que edifício de verdadeira arquitetura, como aquele pertencente ao pessoal da Renault, em Billancourt. A fábrica de carros lhe permitira existir por um bom tempo como profissional, mas, em 1939, cinco anos após tê-lo contratado, ela se melindrou com seus atrasos constantes. Postergar ao ar livre, algo com frequência tomado por irresponsabilidade, foi a marca de Doisneau até sua morte, aos 82 anos, em 1994. Na calçada se abria, para que ele o dirigisse, o teatro da vida. “Nenhum diretor de filmes pode organizar o inesperado que se encontra na rua”, ele discorreu certa vez.
Por exemplo, lembrava-se de uma tarde, em junho de 1964, na qual seus empregadores o aguardavam para clicar vasilhas de poliestireno, “ou talvez de poliéster”, itens a ser registrados dentro de uma espetacular campanha publicitária. Pelo caminho, atrasado para o trabalho, como de uso, ele viu descerem de um caminhão algumas estátuas fornidas do escultor Maillol. De imediato, esqueceu-se das vasilhas e documentou a presença dos bronzes femininos entre os transportadores corpulentos no meio da rua. Agência de publicidade, adeus.
Paris Doisneau, livro da CosacNaify a partir de uma edição da Flammarion em 2009, reúne 500 entre as 400 mil fotografias do artista, acompanhadas de seus textos poéticos, engraçados e curtos. Parece-se com um testamento ou uma tentativa de organizar as fases do olhar de um dos mais populares fotógrafos da França. Pode igualmente ser entendido como um livro de experimentos nos campos da arte ou da história. É também uma prova de como os parisienses, vistos por quase seis décadas até os anos 90, podem ser alegres, contrariando um pesado senso comum. De todo modo, trata-se de obra monumental, sem aspirar ao monumento (400 páginas por R$ 110).
Robert Doisneau respeitava a soberania do contemporâneo Henri-Cartier Bresson no campo da fotografia de rua. Amigo de André Kertész, apreciava suas linhas magistrais clicadas a partir do alto dos prédios. Como os dois, ele captava em preto e branco o movimento dos personagens, embora, em um sentido não literal, lhes tivesse destinado cores até explosivas. À moda dos dois artistas, quando necessário, Doisneau escorregava a câmera portátil pelo bolso de um casaco. Era preciso ocultar a máquina para que o personagem se distraísse da presença do observador. A imagem deveria surgir natural, sem insinuar a pose do fotografado.

Furtivo, à moda de Cartier-Bresson e Kertész, Robert Doisneau roubava os instantes, embora algo na expressão usualmente positiva de seus personagens sugerisse sua cumplicidade com o fotógrafo. E ele não foi um geômetra como os dois amigos e mestres. Por geometria, entendam-se as linhas compostas em harmonia clássica, que tudo revelam sobre a cena.
Nunca houve um geômetra como Cartier-Bresson, tampouco um geógrafo, ainda por cima tão humano, como Doisneau. A Paris das pontes, dos prédios, dos bistrôs, dos personagens obscuros, das estátuas (e ele se diverte muito com elas), só têm sentido se entendidas como narrativas. As imagens vêm acompanhadas de títulos e acrescidas de informações bem-humoradas sobre sua produção. Muitas vezes, como se quisesse chocar o amigo Bresson, ele produz fotonovelas, ou uma sucessão de fotos não únicas. Faz isso com estátuas parisienses sob diversos ângulos em A Simples História de um Garoto de Paris, Bom Menino e Bom Soldado. Com os pedestres que se arriscavam entre os carros para atravessar a Place de La Concorde, antiga praça da guilhotina, compõe a novela da cidade rude contemporânea, que tanto lamentava existir.
Ele foi também um humorista por necessidade poética, já que humor e poesia andavam juntos. Doisneau encarnava o bufão mesmo em meio à tragédia. Na série que este livro dedica ao seu trabalho na Resistência, Paris é uma festa até nas barricadas. O livro, aliás, divide-se em cinco sessões, Paris por Acaso, Paris se Revolta, Paris dos Parisienses, Paris se Diverte e Paris Concreto. Muito pequena é a Paris se Revolta, talvez porque ninguém se rebele com ira diante de Doisneau, ainda que sob a pesada ameaça nazista. A arma dos parisienses, em suas fotos, é tão somente a ironia, a ser encarada com presença cênica. O humor impagável de Doisneau também capta uma bandinha alemã (bumbo, trompete, tuba, clarinete) em parada militar na Rue de Castiglione. Que cinema seria capaz de revelar isso?

Durante o alerta aéreo no Boulevard de Strasbourg, o povo parisiense olha curioso para cima e um entre os passantes sorri, sem intensidade ou drama. No Jardin du Luxembourg, as cadeiras são como bonecos que se deixam arrastar. Ser Marguerite Duras, Alberto Giacometti, Colette, Orson Welles, Juliette Greco ou Juliette Binoche vale tanto para ele quanto o sorriso da anônima senhora Youki Desnos, que mostra aos homens sua coxa tatuada em 1950. Na série Paris dos Parisienses estão os personagens simples e miseráveis que recebem retratos de apuração jornalística, como o boêmio-escultor Jean Savary, ou o porteiro de boate metido a almirante Monsieur Nollan, que posa afetado em sua casa onde tudo brilha.
Toda a alegria contida neste belo volume, que infelizmente dispensa um índice para marcar as páginas onde se iniciam as seções, oculta, contudo, um fato essencial em torno da foto mais célebre de Doisneau, impressa na página 89 do livro. Eis a legenda que seu autor providencia para ela: “O Beijo do Hôtel de Ville, 1950. Estes dois jovens pouco se importavam que o Hôtel de Ville de Paris, incendiado em 1871, tenha sido reconstruído por Ballu e Deperthes em 1874”. O texto casual cita a arquitetura em lugar do que é tão humano na foto, um beijo de dois jovens passantes em meio ao vaivém de pessoas e carros diante de um café, ao redor da prefeitura de Paris.

Soube-se que essa sua imagem mais conhecida, em realidade uma das célebres fotos de todo o século, teria sido montada por ele, em parte desqualificando-a como item fotojornalístico, que se crê tirado do mundo espontâneo e real. Doisneau não atesta a pose neste livro, mas é importante ler seus documentos.
O que o fotógrafo por excelência da França tem a dizer sobre fraude em sua arte parece estar contido na introdução a Paris Doisneau: “Ao longo dos anos, essas imagens que hoje flutuam e vêm se agrupar como rolhas de cortiça na correnteza do rio foram feitas durante as horas roubadas a meus diferentes tipos de empregadores. Desobedecer parece-me uma função vital e devo dizer que não estou privado disso. Enquanto eu, delinquente envelhecido que sou, vejo essas pessoas sérias que são os curadores de museus e os bibliotecários fazerem grande caso dessas imagens recolhidas em condições ilegais, sinto elevar-se em mim um delicioso contentamento”. •