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Alavanca para um país mais sustentável

por Ricardo Young — publicado 05/10/2009 15h25, última modificação 08/09/2010 15h27
Hoje, vou fazer uma recomendação de leitura.

Hoje, vou fazer uma recomendação de leitura.

É possível construir uma economia verde, inclusiva e responsável e explorar petróleo ao mesmo tempo?

Sim e, agora, um artigo publicado em livro recém-lançado pela editora Campus explica como.

O livro se chama Brasil pós-crise – Agenda para a próxima década, organizado pelos economistas Fábio Giambiagi e Octavio de Barros; o artigo é “A sustentabilidade no Brasil”, escrito por Sérgio Besserman, José Eli da Veiga e Sérgio Abranches. Nele, os autores analisam as potencialidades do pré-sal para a indução de uma economia de baixo carbono no Brasil.

Para eles, o pré-sal é uma benção porque deve gerar os recursos de que o Brasil necessita para financiar a transição energética; mas o país deve investir pesado em educação e pesquisa.

Para o trio de autores, o país já possui grandes vantagens comparativas para um mundo de baixo teor de carbono, porque a matriz energética já é mais limpa que em outras nações; e, se reduzir o desmatamento da Amazônia, a equação do baixo carbono fica quase resolvida. Mas, a construção de uma sociedade cuja economia é de baixo carbono exige educação e tecnologia, porque se trata de um mundo que tem ênfase primordial no conhecimento. Haverá inovação tecnológica contínua e uma aversão capilar a desperdícios e ineficiência. Isto demanda dinheiro que deverá vir do uso inteligente dos recursos do pré-sal. Qual seria este uso inteligente, de acordo com os autores?

Potencializar a transição para outra matriz energética, aproveitando as vantagens brasileiras em biomassa, energia solar, eólica e pequenas centrais hidrelétricas.

No entanto, a benção que é o pré-sal, avisam os autores, pode se transformar numa maldição se ele for utilizado para ancorar o passado, ou seja, uma economia que funciona com matriz fóssil.

O mundo da economia verde, inclusiva e responsável esconde riquezas de muitos pré-sais, mas é preciso aprender a enxergá-las. Um exemplo: a sustentabilidade da Amazônia. De acordo com o trio, ela só se tornará possível com a criação de um pólo de alta tecnologia, de modo que o reservatório de biodiversidade que a floresta representa possa gerar riquezas para a região. Também esta proposta depende de pesados investimentos em educação e inovação, do dinheiro do pré-sal, enfim.

Este artigo, por isso, é emblemático e talvez histórico: porque aponta o nó górdio da sustentabilidade no Brasil: a Amazônia. Para Besserman, Veiga e Abranches a questão da Amazônia é que definirá se o Brasil está à altura da oportunidade que a história pôs à frente do nosso país. Temos a chance de aprimorar as políticas de monitoramento de gestão na área pública e privada a partir de iniciativas contra o desmatamento. Porém, mais do que isso, a Amazônia nos impõe o imperativo de dar um salto e criar, pela primeira vez na história, um modelo econômico voltado para a economia tropical, sustentável. Até agora, prevalecem os critérios e parâmetros adaptados de economias industriais e altamente consumidoras de recursos naturais que sempre desprezaram modos de vida tradicionais pelo lucro e crescimento desenfreados.

Trata-se de um desafio civilizatório inédito que vai exigir inusitado pioneirismo e incansável espírito de superação de governantes, empresários, trabalhadores, cidadãos comuns.

A agenda da sustentabilidade ancorada nos recursos do pré-sal não é restritiva, nem pretende limitar o crescimento do país. Quer apenas indicar um caminho para a inserção mais competitiva da economia brasileira num mundo que já nasceu e vai ter vida longa: o da economia de baixo carbono.

O futuro que nos aguarda
Nós podemos comparar esta nascente economia descarbonizada com pelo menos dois momentos emblemáticos da civilização. O primeiro, o uso universal da eletricidade como fonte de energia. A energia elétrica permitiu o avanço no processo de industrialização e de concentração urbana, transformando nossa civilização de maneira sem precedentes até as décadas de 1980 e 1990, quanto outra revolução emergiu: a da tecnologia, que mudou e vem mudando os conceitos de espaço, tempo, geopolítica, relações sociais, comunicação, acesso ao conhecimento e educação formal, entre outros. O que ambas têm em comum? A Revolução Industrial nos trouxe a educação universalizada, o conhecimento estruturado em série, o lugar que conhecemos por “escola” e as universidades politemáticas. A revolução tecnológica promoveu um crescimento exponencial da produção de informações e de conhecimento, cujos impactos na sociedade ainda não são totalmente conhecidos.

A surpresa engendrada no Vale do Silício, nos EUA, tem um lado menos conhecido que é o papel da Índia pós-independência. Fala-se muito do gênio empreendedor de Steve Jobs e de Bill Gates. Pouco se comenta a respeito do grande contingente de profissionais indianos, formados em centros de excelência de seu próprio país de origem. Sem mercado de trabalho na terra natal, emigraram em massa para o Vale do Silício e lá inventaram as complicadas e herméticas linguagens de programação que regem os milhões de computadores no mundo. Hoje, estes profissionais podem trabalhar em seu próprio país e estão ajudando a construir um modelo de desenvolvimento que não se esquece do mercado externo, mas busca atender as demandas internas também. Por isso, estão à frente da indústria brasileira em vários setores estratégicos, como a química fina, por exemplo.

A Índia chegou a este patamar subindo degrau por degrau a escada da educação. Na primeira fase pós-independência, Pandit Nehru, então primeiro-ministro da república, soube aproveitar como poucos estadistas já o fizeram, a situação geopolítica do país. Fazendo fronteira com a China, buscou apoio da Rússia para se desenvolver. Depois, também procurou os EUA e a França, com o mesmo objetivo. Estas potências construíram cada uma um centro de excelência em pesquisa e tecnologia destinado a formar cientistas. Até os anos 1980, estes cientistas migravam para os EUA que, no mesmo período, investiram pesadamente nas universidades de primeira linha e na inovação tecnológica. Assim, quando sobreveio a crise automotiva dos anos 1980, já estava maduro o novo conhecimento produzido nestas universidades, baseado no uso intensivo de computação. Agregado ao valor trazido por indianos, coreanos e taiwaneses, este conhecimento produziu a revolução tecnológica que ainda vivemos.

Este exemplo demonstra que não há ruptura nem prosperidade que não seja precedida de formação intensiva e incansável de capital intelectual. Com a economia verde, não será diferente. Por isso, o Brasil não pode deixar de investir no futuro. O dinheiro do pré-sal precisa financiar os novos cientistas que vão criar as tecnologias necessárias para a construção de um futuro mais sustentável e justo neste país.