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Cultura

Crônica do Villas

Afinal, o que viemos fazer em Lisboa?

por Alberto Villas publicado 07/07/2015 11h03
A vida, às vezes, apronta uma surpresa com a gente
Alberto Villas
No hospital, em Benfica

Foram quatro dias de soro, chá, muitos comprimidos e picadas

As luzes amarelas nas avenidas me perseguiram até o bairro de Benfica, onde fica o Hospital da Cruz Vermelha. Operários em macacões marrons trabalhavam na madrugada, instalando arquibancadas de ferro para a festa de Santo Antônio. Me lembro pouco deles mas muito das luzes amarelas que refletiam nos meus óculos, ofuscando meus olhos assustados.

Deixei pra trás, num pequeno apartamento no Chiado, uma mala ainda por desfazer e, em cima dela, uma pastinha de plástico transparente com todo o roteiro das férias. Saídas e chegadas de trens, horários dos voos, nome dos flats, dicas preciosas de amigos impressas em papel A4, mapas, endereços de restaurantes bacanas, tudo muito organizadinho.

O taxista que me levou num automóvel Mercedes creme foi muito gentil e me deixou a um passo da recepção da Urgência, onde fui atendido em segundos, sangrando.

Passei um dia inteiro naquela sala fria, sendo paparicado pelas enfermeiras de plantão: Rita, Sofia e Vera. Cuidaram bem de mim, perguntando a todo momento se estava magoado. Foi Rita que retirou do meu bolso o passaporte, uma carteira com um punhadinho de euros, dois cartões de crédito e um outro, que abria a porta do apartamento no Chiado.

Sofia guardou o meu iPhone já quase sem bateria e algumas moedas, troco do taxista. Arrumou tudo dentro de um armário de aço inoxidável e me explicou direitinho onde estavam os meus pertences, quando  passou o plantão.

Vera me serviu um caldo de galinha que ela chamou de canja, acho que para me animar um pouco. Ainda trouxe duas torradas de bônus que, na verdade, me deixou muito feliz.

Foi um dia inteiro - o primeiro das férias em Lisboa – de exames e mais exames. Ia e vinha pelos corredores numa maca, enxergando apenas luzes brancas no teto,  que me fizeram lembrar um filme que vi, ainda jovem - Hospital - baseado no best-seller de Arthur Hailey.

Na madrugada do primeiro dia fui transferido para o quarto 404. Lembro-me do elevador enorme que cabia folgadamente uma maca e três enfermeiras. O quarto tinha as paredes imaculadamente brancas e muito limpas. O lençol e a fronha do travesseiro na cama, combinavam com a minha camisola, azul e branca, de listras finas, com uma pequena cruz vermelha na manga.

Deitado, olhei pra trás e enxerguei uma janela enorme que dava para uma escuridão sem fim. Só percebi a beleza do lugar quando o dia começou a clarear. A janela tinha uma vista para um jardim imenso, cheio de árvores bem verdes, algumas floridas, onde os passarinhos – muitos - começavam o dia em algazarra.

Apaixonado por passarinhos, sem poder levantar da cama, ficava tentando adivinhar, pelos seus cantos, que pássaros eram aqueles. Um lembrava o sabiá mas, pensei com os cordões da minha camisola, que Portugal não tem sabiá como na minha terra, onde eles cantam nas palmeiras. Senti que as aves que ali gorjeavam não gorjeavam como lá.

Foram quatro dias de soro, chá, muitos comprimidos e picadas. De tempos em tempos tiravam o meu sangue, a minha urina, a minha febre. Mesmo fraco, tive forças para gastar os últimos pontinhos do iPhone registrando numa fotografia, a bandeja que recebia de manhã, ao meio-dia e no início da noite. Os comprimidos num pratinho azul e branco, o chá, uma garrafinha de água mineral que ironicamente levava o nome de Penacova, além de um garfo e uma faca. Pra que essa faca? perguntava eu, de manhã, ao meio-dia e no início da noite.

Os dias foram passando e eu ficava pensando na Lisboa lá fora, com seus cantores de rua entoando Fernando Pessoa: Navegar é preciso/Viver não é preciso. Pensava na Lisboa das ladeiras, dos bondes, do oceanário, do Museu Berardo, do jornal Público dependurado nas bancas, dos pastéis de nata, do bacalhau fresco, das sardinhas, dos suaves azulejos.

O meu mundo se resumia a um quarto branco quatro por quatro. Ouvia um zum zum zum nos corredores e toda vez que queria ir ao banheiro, apertava uma campainha. Foi nesse ambiente que soube da morte de Fernando Brant, o compositor de Coração de Estudante, de Olacyr de Moraes, o rei da soja e do Zito, o craque canarinho das Copas de 58, 62 e 66.  

No quinto dia, tiraram o soro logo cedo. A doutora Silvia Souza passou e me deu a boa notícia: Alta! Minha mulher chegou com uma pequena mochila com a roupa que eu deixaria o hospital. Sem perceber, ela trouxe uma camisa azul da seleção de São Tomé e Príncipe. Era ver pra crer.

Antes de sair, voltei a comer! A enfermeira abriu a porta com uma bandeja com macarrão, cenouras, brócolis e um filé de frango. De sobremesa uma maçã assada.

Descemos o elevador e um táxi veio nos buscar. Voltei pela mesma avenida, larga, enorme, bonita, só que agora as luzes amarelas estavam apagadas e os operários de macacões marrons estavam desarmando as arquibancadas de ferro porque a festa de Santo Antônio já havia passado. E eu perdi.