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Adriana Moreira canta a emoção banhada em ancestralidade

por Ana Ferraz publicado 23/05/2015 09h00
Em seu disco mais recente, cantora retrata sua trajetória com Gonzaguinha, Nelson Cavaquinho, Roberto Didio e Renato Fontes, entre outros
Divulgação
Adriana Moreira

Personalidade marcante, a filha de Iansã com Ogum se orgulha das origens

Aos 7 anos, Adriana Moreira improvisava um microfone com o cabo de vassoura e soltava a voz. O incentivo maior vinha do avô, Jayme de Aguiar, professor, engenheiro agrimensor, paulistano do Bixiga e fundador de um dos primeiros jornais da imprensa negra de São Paulo, Clarim da Alvorada.

Homem culto e de modos refinados, gostava de ouvir Elizeth Cardoso, Dalva de Oliveira e se derretia por Clara Nunes. A mineira de cabeleira adornada de búzios e voz tão límpida quanto o nome ocupava lugar cativo no toca-discos da família e a contagiante Fuzuê (Romildo/Toninho) mexia com Adriana, que àquela altura não sabia, mas começava a formar o futuro repertório.

A redescoberta como cantora veio aos 25 anos. O então marido tocava com Carlinhos Vergueiro, que convocou as mulheres dos músicos a participar no coro de um disco. A experiência foi transformadora. Naquela noite Adriana perdeu o sono. “Fiquei me remoendo. Gente, o que é isso que estou sentindo? Aquilo para mim foi demais.”

Ouviu o conselho de uma amiga e decidiu estudar canto. No teste para a escola de música, a fila dava a volta no quarteirão. Achou que não teria chances. Cantou Cartola, foi aprovada e nunca teve tanta certeza de que era realmente isso que queria fazer na vida.

Cinco anos depois, ainda com a natural insegurança dos começos, lotou uma casa noturna paulistana. No repertório, o inigualável Oscar da Penha, Batatinha (1924-1997), o baiano de sambas dolentes que cantou a melancolia como poucos e cujas melodias sinuosas são um desafio e uma armadilha. Os convites começaram a chegar, veio o primeiro disco, Direito de Sambar (2006), um comovente tributo a Batatinha formado por 14 músicas, seis inéditas.

“Batatinha me fez cantora. Fui agraciada”, diz. “Muita gente acha que ele não é sambista, diz que é um compositor de MPB, como se o samba não fizesse parte da MPB! Aí fico indignadíssima! Ele é o que, então? E quem fala isso é gente da área que se diz entendida de samba. Gente que acha que sambista é só o cara da escola de samba, que vive no morro. Eu nasci na Vila Mariana, então também não sou sambista?”

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(Crédito: Divulgação)
Personalidade marcante, a filha de Iansã com Ogum se orgulha das origens. “Carrego um compromisso com minhas raízes. É uma missão. É um histórico que trago na veia, que vem da escravidão. Eu tenho orixá, tenho religião, sempre frequentei o candomblé, sempre gostei dos batuques, do pé no chão. Chegou um momento em que minha carreira foi conversando com isso e assim como na minha vida entrou um compositor baiano, fui atrás da minha ancestralidade”, diz, vigorosa, as mãos a se agitar no ar, o cabelo orgulhosamente afro envolto num turbante amarelo, os pés descalços sobre o tapete da sala adornada por esculturas de orixás. “Sou do Ketu, do Afonjá da Bahia, sou feita.”

No disco mais recente, Cordão, lançado no ano passado, a cantora de 43 anos retrata sua trajetória. Fuzuê, “dica do meu avô”, está lá. “Tem Gonzaguinha, Nelson Cavaquinho, gente da nova geração, Roberto Didio, Renato Fontes, Douglas Germano, Milton Conceição, que é do Camisa Verde. Além de gravar o que me toca, incluo compositores novos. Meu cordão é isso, os músicos que me acompanham há mais de sete anos, a minha ancestralidade, é tudo uma união, uma roda que gira”, explica. “Canto os compositores que me dizem a verdade”, afirma, contundente.

“O Paulo César Pinheiro disse que ultimamente a música está muito alegrinha pro gosto dele... Tem de ter um fundamento, a gente tem de se ligar no que está acontecendo. É isso que me impulsiona e emociona.”

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