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Cultura

Crônica do Villas

Adivinhe quem vem para jantar

por Alberto Villas publicado 19/09/2013 11h23, última modificação 19/09/2013 11h24
Zé Celso chegou para comer uma macarronada à bolonhesa que prometi e foi ficando. Por Alberto Villas
Jennifer Glass / Divulgação Oficina
Zé Celso Martinez Correa

Ele chegou para comer uma macarronada à bolonhesa que prometi e foi ficando

Paris, maio de 1977. O primeiro encontro com Zé Celso Martinez Corrêa foi no Instituto Nacional de Audiovisual. Um sol tímido já vinha mostrando sua cara, mas um ventinho ainda frio insistia em soprar forte na cidade. Zé Celso acabara de chegar de Moçambique e, animadíssimo, disparava sua metralhadora para todos os lados. Gesticulava muito, queria falar, contar suas aventuras, suas histórias.

Eu estava ali para fazer a matéria de capa do jornal Versus. Zé Celso amargava um exílio depois de três prisões no Brasil, um Brasil que não gosto nem de lembrar. Ele corria o mundo e, depois de um tempo em Portugal, desembarcou em Moçambique para rodar um filme, registrar os primeiros momentos da independência de um país, a libertação, a alegria de um povo depois de quatro séculos de colonialismo. O filme estava pronto e já tinha nome: 25. Uma homenagem ao 25 de junho de 1975, dia em que o país africano ficou livre de Portugal.

Nosso primeiro encontro durou algumas horas e um segundo encontro foi combinado para o dia seguinte, à noite, na minha casa. Minha casa, na verdade, era um apartamento minúsculo de três cômodos a poucos quarteirões da Bastilha. No dia seguinte fomos cedo ao supermercado comprar os ingredientes para uma macarronada à bolonhesa que havia prometido fazer para ele: Massa, tomates, carne moída, alho, cebola, manjericão e queijo parmesão ralado.

Meu refúgio de estudante era praticamente uma sala cheia de livros desorganizados numa estante feita de tijolo e madeira, um pôster de Ho Chi Min na parede, um tatame, algumas almofadas indianas espalhadas pelo chão e um painel de cânhamo cheio de fotografias espetadas com alfinetes de cabeças coloridas.

Não tinha televisão, não tinha geladeira, não tinha mesa, não tinha nada. Era uma casa muito engraçada. Durante muitos anos cultivamos a ideia de fazer um piquenique todos os dias. Estendíamos uma toalha xadrez no chão, espalhávamos os pratos, os talheres e era ali mesmo que tomávamos o café da manhã, almoçávamos, jantávamos. E foi com essa toalha no chão, pratos espalhados e um cheirinho de incenso e macarronada que recebemos Zé Celso.

Chegou de braços abertos, bufando, reclamando dos 68 degraus que subiu porque no prédio elevador também não havia. Disse que o cheirinho estava ótimo, pegou uma taça de vinho, sentou-se no chão e começou a falar do 25: "Queríamos fazer um filme feliz, mostrar uma alegria guerreira. Um documentário do ponto de vista do colonizado”, disparou ele enquanto bebia o vinho.

Alta madrugada, depois de saborearmos a tal macarronada à bolonhesa e beber duas garrafas de Beaujolais, Zé Celso foi ficando. Foram quinze dias hospedado na minha casa. Hospedado é o modo de dizer. Ele deixou sua sacola cheia de echarpes, livros, revistas, canetas e papéis e, de vez em quando, passava por lá para contar as novidades, dar uns goles na garrafa de suco Tropicana e comer torradas com Nutella. E saia voando porque não tinha tempo a perder.

Um dia ele apareceu para dizer que estava indo embora. O tempo passou, o mundo girou e nunca mais cruzei com Zé Celso. Sempre acompanhei com interesse suas andanças e eternas aventuras, inclusive aquela aparição surreal no videoclipe Estrangeiro de Caetano Veloso.

Um dia soube que Zé Celso, o dramaturgo, o diretor, o ator, o meu hóspede, agora com cabelos brancos, havia sido anistiado. A Comissão de Anistia do Ministério da Justiça se reuniu no Teatro Oficina em São Paulo, eterno QG de Zé Celso para votar e todos votaram a favor.

Ele disse na cerimônia que achava que merecia a aposentadoria porque fora assassinado socialmente pela ditadura. Foi não, Zé! Eles te mataram, mas você não morreu. Hoje, mexendo aqui nesses papéis velhos e amarelados me lembrei dessa história. Fique sabendo, Zé Celso, que se quiser voltar à minha casa a porta está sempre aberta. O pôster de Ho Chi Min não está mais na parede, não tenho tatame nem almofadas indianas espalhadas pelo chão. Mas a macarronada à bolonhesa a gente sempre dá um jeito de fazer.

Para ver o clipe “Estrangeiro”, clique aqui:

https://www.youtube.com/watch?v=faPc0Uxa3F4