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Crônica

Adeus, mundo cruel!

por Alberto Villas publicado 05/08/2016 04h06
Não tenho a menor saudade de um tempo onde não havia respeito

Estava fazendo uma peregrinação pelos sebos de Copacabana, quando topei com um exemplar da revista Joia, datado de dezembro de 1967. Folheei, não resisti, comprei. 

No caminho pra São Paulo, abri a revista que tinha rastros de traça, um leve cheiro de mofo, misturado com as Tintas Bloch Color, usadas por Seu Adolpho em todas as suas revistas. 

Logo na primeira página, na seção de cartas dos leitores, encontrei uma de Alzenira Fernandes Lauriano, da Ilha do Governador, quando ainda era Estado da Guanabara.  

Dona Alzenira pedia ajuda da revista Joia para encontrar um livro que ela estava à procura há meses e nada de achar. O livro chamava-se Educação de Crianças Retardadas, cujo autor ela sabia apenas o sobrenome, Decoendis.

Passei a viagem inteira lembrando como era cruel o mundo, um mundo onde uma criança com qualquer problema mental era chamada de retardada. E não somente retardada. Quantas e quantas vezes não ouvi minhas tias dizendo que um primo que morava no interior era débil mental, era abobado? 

Era um tempo em que não havia rampa de acessibilidade para cadeirantes, não havia estacionamento para idosos, tampouco ônibus adaptados para pessoas com deficiência física, que eram chamadas de aleijadas. Não havia sequer aqueles símbolos de idosos, grávidas, obesos e cadeirantes espalhados por ai. 

Era um tempo em que não se falava em Alzheimer. Lembro-me muito bem que eu, menino ainda, ouvi minha mãe dizer que dona Anita estava caduca, quando ela chegou na nossa casa carregando um cágado enorme, que nos deu de presente. Se ela chegou lá com aquele bicho no colo, colocou-o no jardim e foi embora sem dizer nada, é porque estava caduca, lelé da cuca, tantan e não com sintomas de Alzheimer. 

Na minha rua tinha um menino com síndrome de Down. Ela passava pra lá e pra cá falando alto e fazendo contas de matemática. Ninguém dizia que ele tinha Down ou era bom de tabuada. Ele era conhecido no bairro como mongoloide. 

Na minha escola haviam três meninos com paralisia infantil. Eles tinham as pernas finas, um aparelho de couro e andavam com muletas. Não passava na cabeça de nenhum professor fazer a integração deles no grupo. Os menininhos das pernas finas, lembro-me muito bem, ficavam sentados num banco com os olhares tristes enquanto fazíamos educação física, chutávamos bola ou jogávamos queimada no recreio. Eles ficavam de fora e pronto. 

O mundo era cruel com essas pessoas. 

Não se falava em AVC. Morria-se de derrame e quando não morria, a pessoa corria o risco de ficar ali sentada numa cadeira olhando para o futuro sem futuro, para o vazio vazio, para o além, olhando para uma janela que mostrava o dia nascendo e, no final da tarde, morrendo. 

Não se fazia operação bariátrica e quem era obeso morria obeso. Além de passar a vida inteira ouvindo que era balofa, gorda e feia.

O mundo era mesmo cruel.

Falava-se naturalmente que uma pessoa era preta mas descente, era preta mas era limpinha, era preta mas tinha alma branca.

Falava-se que um analfabeto era burro, que um gay era mulherzinha, que uma pessoa de baixa estatura era pirralha, enquanto os gagos eram apenas personagens de piadas.

Será que esse mundo cruel acabou?

Se ainda resta um pouquinho de preconceito espalhado por ai, lá no fundo do tacho, que tal se areássemos bem forte usando todas as nossas forças?

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