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Cultura

Crônica do Villas

Adeus

por Alberto Villas publicado 05/06/2014 09h59, última modificação 06/06/2014 11h45
Quando a morte de duas pessoas pega a gente de surpresa. Por Alberto Villas
Sidnei Scalioni
Benjamin Abaliac

Benjamin, nos tempos de jornaleiro

Assim que pus os pés na Faculdade de Filosofia da UFMG, trombei com Benjamin Abaliac. Um cara alto, esguio, ruivo, meio Barão de Itararé, cabeludo e barbudo como bem convinha naquele mil novecentos e setenta e um. Não me lembro como ele se trajava, mas tudo leva a crer que tinha um tênis Bamba nos pés e não usava meias. Usava uma calça Topeka meio surrada e uma camiseta curtinha manchada de água sanitária, a última moda. Se não me falha a memória, tinha uma bolsa de couro a tiracolo e talvez, dentro dela, alguns exemplares da revista semanal Placar.

Primeiro dia de aula, Benjamim procurava o Curso de Jornalismo como eu e, juntos, pegamos o elevador rumo ao oitavo andar daquele edifício na Rua Carangola, no bairro Santo Antônio, em Belo Horizonte. Benjamim era um cara exótico na aparência e um doce por dentro. Tinha um humor irônico e um sotaque carioca que contrastava com os nossos uais.

Logo nos primeiros meses de aula, animados, lançamos um jornalzinho chamado Flã e Benjamim, louco por futebol, foi logo nomeado editor de esportes. Para o primeiro número encomendei-lhe um artigo que ocuparia a página A4 inteira. Ali mesmo na sala-laboratório, ele sentou-se numa velha Olivetti caindo aos pedaços e batucou suas primeiras linhas.

O artigo intitulado “A falência do futebol mineiro” foi publicado e elogiado. Ele falava da venda de Tostão ao Vasco e dos cartolas, que ocupavam seus lugares fora do gramado, em cadeiras numeradas. O jornalzinho era um sucesso e toda semana, impresso em mimeógrafo, espalhava um cheiro de álcool pelos corredores da Faculdade de Filosofia.

Um dia, meio desanimado e com a ironia de sempre, Benjamin anunciou que comprara uma banca de jornal.

- Já que o jornalismo não dá dinheiro, vou ser jornaleiro.

Todo os dias, Benjamim chegava à faculdade com minhas revistas, livros e fascículos, previamente encomendados. Naquele tempo, comprava a Veja de Mino Carta, a Placar, a Senhor e uma infinidade de fascículos. Lembro-me que, um dia, ele trouxe, sem eu encomendar, o primeiro número de Povos & Países, uma coleção que trazia um disquinho com músicas de cada país, numa época em que ainda havia a União Soviética, a Tchecoslováquia e a Alemanha Oriental. Ele sabia que eu ia gostar.

Um dia, peguei o primeiro avião e fui-me embora do país, deixando pra trás o curso de Jornalismo, o jornalzinho Flã, as minhas coleções de fascículos incompletas e amigos do peito, inclusive o Benjamin.

Lá fora, tive poucas notícias deles. De Benjamim, quase nenhuma. Uma única carta dele chegou a Paris, curta e grossa, apenas pedindo que enviasse notícias e perguntando se Paris era mesmo uma festa. As notícias dos amigos muitas vezes me assustavam. Um estava trabalhando no Diário de Minas, outro na Manchete, na Veja, na TV Globo. E eu em Paris lavando pratos.

Benjamin, que amava os Beatles, os Rolling Stones e o futebol foi trabalhar na Veja, depois na Placar e mais tarde no Estado de Minas. Virou um ótimo redator porque entendia do riscado. Uma lacuna entre França e Brasil nunca me permitiu saber detalhes da vida dele. Se teve paixões, casou, teve filhos, viajou ou quando se desfez da banca de jornal.

Vim a encontrá-lo muitos anos depois, quando a turma da Faculdade de Filosofia completou 30 anos de formatura. Lá estava ele, cabelos brancos e a elegância de sempre. Soube então que tornou-se um campeão de futebol de botão, abriu um bar e continuava brilhando na editoria de esportes do jornal Estado de Minas.

Só voltei a ter notícias de Benjamin no mês passado, quando um e-mail piscou na minha caixa. Benjamim estava num leito de hospital precisando de sangue. Senti um frio na barriga, uma dor no peito, uma agonia que durou um mês. Todos os dias vinham notícias, cada vez mais preocupantes. Até que uma última chegou dando conta de que ele não estava mais entre nós.

Sentei e rascunhei esta crônica. Quando fui relê-la para encaminhar pra CartaCapital, chegou a notícia da morte de outro amigo querido, o Maurício Torres, companheiro de Globo, de piadas sobre o América Mineiro e litros de café no corredor. O mês de maio não foi fácil.