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Ação sem insígnia

por Rosane Pavam publicado 10/04/2008 16h37, última modificação 16/09/2010 16h39
O teste para uma inteligência de primeira categoria”, disse o escritor americano F. Scott Fitzgerald, “é a capacidade de ter em mente duas idéias opostas ao mesmo tempo, e ainda continuar em condições de funcionar”. Este parece ser um dito para todos os americanos, eles e nós

“O teste para uma inteligência de primeira categoria”, disse o escritor americano F. Scott Fitzgerald, “é a capacidade de ter em mente duas idéias opostas ao mesmo tempo, e ainda continuar em condições de funcionar”. Este parece ser um dito para todos os americanos, eles e nós. A capacidade de absorver esta simultaneidade serve a qualquer um, é mesmo necessária, especialmente se desejamos compreender uma ironia, um sarcasmo, uma complexidade. Um grego já sabia disto antes de todos.

E, no entanto, é quase certo que, ainda hoje, nós nos vejamos em dificuldades, como opinião pública, para agir nas entrelinhas e exercer a sutileza no largo caminho entre um não e um sim. Que enorme diferença haveria entre republicanos e democratas, lulistas e serristas, milionários e perdedores, obamas e clintons? As compreensões deveriam ser dinâmicas como o monjolo cuja água que entra se renova naquela que sai - no fundo, é uma água só.

Especialmente quando nos pomos a escrever para a imprensa, experimentamos muitas e cotidianas incompreensões. O risco de ser sutil vem junto com aquele de exercer a profissão. É um risco semelhante metaforicamente àquele de que foi vítima Ayrton Senna na Tamburello: claro está que o piloto não desconhecia a possibilidade muito grande de se espatifar numa curva, mas, além de todos, ele conhecia seu valor de mercado e considerava tal chance como inevitável em cada corrida. Jamais fugiu de correr do jeito que lhe pareceu melhor. Mas, bem, opa, não se pode mexer em um ícone como Senna, nem por alegoria, nem por livre-pensar, nem, muito mesmo, por humor! Então me desculpem?

Mas é que eu temo que a cada dia nos aproximemos de um jeito Bope de ser, jocoso, emburrecido, prepotente, com arma em punho, quando o homem tem pensamentos a sacar diante de várias situações tidas por extremas. Nós temos preferido nos tornar contundentes como a polícia, sem, contudo, exibir a consistência exigida para a ação de um policial. A cada dia, nós parecemos incapazes de expressar os sentimentos em forma de prisma, absorvendo e refletindo uma luz a partir de muitos lados.

Podemos divagar solitariamente sobre quem teria matado a pobre menina Isabela, por exemplo, o pai, a madrasta ou o pedreiro, neste enredo de intimidade macabra que se anuncia a qualquer espectador de tevê ou leitor de jornal. Mas de que nos serve jogar a primeira pedra em algum suspeito não julgado, diante da delegacia pela qual ele passa, munidos de nossos pequenos filhos ao colo, encapotados e desentendidos numa noite fria? Vi esta cena em um jornal sensacionalista de televisão e senti o frio da rua invadir meu sofá. Quem conhece ao certo o autor da atrocidade contra a menina, tão certo desta autoria que pode prejulgá-la?

Somos muitos, somos vários, e tal atitude de linchamento deve dizer respeito à intensa agitação psicológica de cada um, a seu medo de identificar-se com a monstruosidade, a sua necessidade de gritar, para afastá-la. Ninguém pode impedir uma pessoa justamente consternada (quanto mais duas ou três, juntas, contaminadas pelo repúdio), que se manifeste publicamente. Mas este é um assunto sobre o qual podemos refletir antes de chegar à ação, ou pelo menos depois de a ter alcançado.

Falei sobre Isabela, mas não há só ela neste vasto, triste mundo. Somos policiais de muitos modos, todos os dias, diante das pequenas atitudes alheias que nos incomodam ou que se sobressaem a nós. Não há nada ruim em ser policial, por favor, especialmente um policial real, que aja para coibir um crime! Mas existe algo de exasperante em nossa eterna beligerância no papel de juízes dos dias comuns, como se nos víssemos no direito de agir contra os outros sem portar a devida insígnia.

Nós nos julgamos em posição de avaliar, por exemplo, um artigo de David Mamet reproduzido no caderno Mais! da “Folha de S. Paulo” do dia 6 de abril. O diretor e dramaturgo Mamet, dizem os jornalistas, guinou à direita. Mas o artigo não expressa isto, parece-me. Diante deste artista, sempre foi possível ler as posições clássicas de um conservador. Um americano vê comumente dois mundos opostos, de republicanos ou democratas. Contudo, quem estaria mais à direita ou à esquerda entre os dois? Mamet reconhece essa diferença minima, e agora nos diz o óbvio: que John Kennedy cometeu um pecado eleitoral tanto quanto George W. Bush. Há quanto tempo ele conhece esta verdade, não é? Faltou anotar, em Kennedy, a porção belicista que se reconhece facilmente em Bush.

Em seu artigo, Mamet, que faz filmes em torno de estabelecer erros (“O Assalto”) e culpas (“Cadete Winslow”), é um pensador liberal em busca do acerto e do aprimoramento de um estilo de vida. Ele não pode aceitar que sejam todos menos americanos do que são. Então, quando a América parece próxima do perigo do enxovalho e da destituição de sua primazia no cenário econômico, político e de idéias, ele promove uma grita, que deve ser tida por natural.

Que mal há em expor com sinceridade uma posição já conhecida? É o mesmo que fez Jason Reitman, cineasta de menor envergadura intelectual, em “Juno” e “Obrigado por Fumar”. Alguém tem de devolver a América a seu lugar: que sejam, estas pessoas, os intelectuais. Reitman e Mamet, artistas inteligentes, talvez se horrorizem diante da possibilidade de se verem administrados por um sistema chinês. Ninguém poderá condená-los no terreno da palavra. Mas, como observadores, sejamos sutis ao analisar suas