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Protagonista

A voz distante de Orfeu

por Araújo Lopes — publicado 17/09/2010 11h42, última modificação 17/09/2010 12h32
Roberto Paiva foi o primeiro a gravar Se Todos Fossem Iguais a Você. Por Araújo Lopes

A história o exibe em segundo plano, mas o cantor Roberto Paiva, de 89 anos, ocupa um degrau bastante alto na música popular brasileira. Agora que uma nova montagem do musical Orfeu, sob a direção de Aderbal Freire-Filho, chega ao Rio, em superprodução de 2,2 milhões de reais a ser exibida em mais cinco capitais, seu nome volta à consideração da apagada memória nacional.

Paiva foi o primeiro cantor a gravar as composições da parceria entre Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes. Em 1954, o então pianista da noite carioca e o poeta se reuniram pela primeira vez. Eles comporiam as canções da peça que Vinicius arquitetara como um sonho. Com Orfeu da Conceição, o poeta imaginava traduzir para o mundo dos morros cariocas a tragédia grega universal de Eurídice.

A peça, na qual todos os protagonistas eram negros, foi levada à cena do Theatro Municipal do Rio em setembro de 1956. O sucesso foi tanto que, três anos depois, virou filme pelo francês Marcel Camus. Orfeu Negro ganhou Palma de Ouro em Cannes em 1959, Oscar de Melhor Filme Estrangeiro em 1960 e Globo de Ouro no mesmo ano, em idêntica categoria.

O sucesso motivou a gravadora Odeon a registrar as músicas da peça ainda em 1956. O desafio era encontrar um cantor de bela voz para interpretar as canções. Aloysio de Oliveira, que tinha liderado o Bando da Lua, namorado Carmen Miranda, feito uma bela carreira de produtor nos Estados Unidos e então dirigia a gravadora, lembrou-se de Paiva, uma das maiores estrelas da Era do Rádio, sucesso desde quando ela começou, em 1938. Quando a Mayrink Veiga era a melhor do Rio, ele estava lá. Quando a Rádio Nacional estabelecia o mais alto padrão de profissionalismo no rádio brasileiro, Paiva integrava seu elenco. Parecia natural que o ex-líder do Bando da Lua convocasse o funcionário para a tarefa.

Oliveira pediu-lhe que fosse à casa de Tom Jobim para ouvir as músicas. De sua janela no bairro da Tijuca, Roberto Paiva lembra a CartaCapital a recusa: “Ficava mal eu ir à casa do compositor. E se não gostasse de nada? Iria ter coragem de dizer, na casa dele, que não gostava? Seria uma indelicadeza”. Mas Oliveira insistiu. Lembrou-lhe que Vinicius era poeta reconhecido e Tom Jobim, “ótimo pianista”. O cantor conhecia Tom de suas gravações com Dolores Duran para a Odeon. Sim, ótimo pianista. E capitulou. Foi à casa de Ipanema onde morava Tom. Ele tocou ao piano Se Todos Fossem Iguais a Você, inédita em disco. “Essa é minha! Vou gravar. Tem outra?”, disse-lhe na hora. O maestro tocou mais uma. E Paiva: “Essa eu quero! Vou gravar também!” Tom arriscou mais. E o cantor: “Vou gravar!”

Quando Paiva saiu do apartamento da rua Nascimento e Silva, ele e Tom eram amigos. Ele gravaria cinco músicas do filme: Se Todos Fossem Iguais a Você, Um Nome de Mulher, Eu e o Meu Amor, Lamento no Morro e Mulher Sempre Mulher. Um mês depois, reuniam-se no estúdio da Odeon no Rio com 35 músicos, coro, Luiz Bonfá ao violão e regência do próprio Tom. Bastou um dia para gravar todas as músicas do disco. E um detalhe. O estúdio onde as canções foram gravadas estava tecnicamente condenado, mas era o único disponível. “Quem fez a avaliação tinha se enganado, pois o som saiu perfeito”, conta Paiva.

Gravar as primeiras músicas de Tom e Vinicius em disco foi mais uma joia para a carreira de êxitos do cantor. Quem se lembra de O Trem Atrasou, de Paquito, Estanislau Silva e Artur Vilarinho? Patrão, o trem atrasou/ Por isso estou chegando agora/ Trago aqui um memorando da Central/ O trem atrasou meia hora/ O senhor não tem razão para me mandar embora. Paiva descobriu este samba, campeão do carnaval de 1941, enquanto ia para casa de bonde. Ele começara a gravar para a RCA Victor e recebera canções para avaliar. Depois de ler a letra da rejeitada O Trem Atrasou, saltou do bonde. “Tinha certeza de que seria um sucesso. Eu mesmo usei um memorando daqueles quando cheguei atrasado ao colégio!”

Afilhado artístico de Cyro Monteiro, nascido Helim Silveira Neves, Paiva começou a cantar profissionalmente em rádio quando ainda estudante do Colégio Pedro II, aos 16 anos. No estúdio, ao lado de Aracy de Almeida, Carmen Miranda e Francisco Alves, cantava usando a farda da escola. Descobriu o compositor Geraldo Pereira e gravou seu primeiro samba, Se Você Sair Chorando. Sua interpretação de Tom e Vinicius o ligou aos primeiros passos da bossa nova, mas a empreitada poderia lhe ter trazido muito mais dinheiro e fama. Na opinião de Paiva, isso só não aconteceu por um erro de fábrica.

O primeiro disco da peça Orfeu da Conceição foi gravado pela Odeon segundo uma nova tecnologia, a do long-play de dez polegadas em vinil. Em um dez polegadas cabiam dez músicas, e em um 78 rpm, duas. Mas quase ninguém no País tinha vitrola capaz de tocar o LP de dez polegadas. “Só mesmo deputado ou senador”, brinca Paiva. “Fui para São Paulo, mas pedi ao Aloysio que fizesse Se Todos Fossem Iguais a Você em 78 rpm. Ele podia gravar qualquer outra música do outro lado. Podia até deixar em branco!” De volta ao Rio, Aloysio disse-lhe que não fizera o registro porque a música passara dos três minutos, máximo permitido para um 78 rpm. Paiva lamenta. Poderia ter sido reconhecido como intérprete do sucesso por todo o Brasil. “O Aloysio poderia ter cortado um pedaço da introdução.”

Paiva faz shows até hoje. Não tem a mesma voz, mas a qualidade artística permanece. Tem uma cadência e um ouvido privilegiados, qualidades que lhe valeram, na época da gravação de Orfeu da Conceição, os elogios de Vinicius registrados na contracapa do LP: “Roberto Paiva, escolhido de comum acordo pela Odeon e por nós para cantar neste LP os sambas de Orfeu da Conceição, em nada desmereceu essa confiança. A sua voz de timbre tão agradável dá em todos os números justamente a interpretação que eles pediam: uma interpretação sóbria e direta, apoiada sobre a melodia e em justa composição com os ricos elementos harmônicos que Antonio Carlos Jobim soube tão bem criar em todos os seus arranjos”.

Paiva recebeu também o carinho daquela que deu à canção Se Todos Fossem Iguais a Você seu estilo inconfundível. Uma noite, a cantora Maysa o viu na plateia de uma casa noturna do Rio e, ao microfone, disse-lhe: “Aprendi a cantar esta com você”.