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A volta dos mortos-vivos

por Rosane Pavam publicado 14/09/2011 15h59, última modificação 14/09/2011 17h47
Vitor Knijnik reúne em livro os textos de sua coluna Blogs do Além e espera ser reconhecido como humorista

Chamem-no de humorista. Se a história lhe reserva alguma permanência, Vitor Knijnik preferirá aquela de ter provocado o riso no leitor. O publicitário demonstra essa fé cômica há três anos, desde que passou a escrever os Blogs do Além para CartaCapital. Agora, suas colunas semanais, 99 delas, alcançam o formato mítico de brochura pela Realejo Livros e Edições. E embora este gaúcho de Porto Alegre visualize uma boa carreira para o livro, negará o epíteto de autor em respeito a seus ídolos Nelson Rodrigues, que escreveu sobre a vida como ela é, e Machado de Assis, o primeiro a expor a miséria humana desde além-túmulo.

Aos 45 anos de idade, Knijnik está certo ao rechaçar para si o manto literário, que na palavra “autoria” ganhou correspondência. Ele não é Nelson nem Machado, está mais para o médium Chico Xavier, como brinca no prefácio, embora se inspire no dramaturgo e no romancista para comentar as coisas “sem superioridade moral”. Mas o método de Knijnik é, em parte, aquele do personagem machadiano Brás Cubas, que em suas memórias póstumas observa do alto, liberto do tempo, as vidas alheias. Arrogante ou divertidamente, o colunista usa a existência dos homens célebres para pilhar dos que ainda vivem. E, como ensinam os mestres do humor, faz tudo isso principalmente para, por meio dos outros, rir de si mesmo. “O humor é a vitória de quem não quer competir”, decretou Millôr Fernandes, e Knijnik assina embaixo.

“Eu não preciso vencer”, ele diz em entrevista a CartaCapital, revista para a qual criou os Blogs do Além como uma tentativa de oferecer à publicação uma página de humor “inteligente, adequada a ela”. Sua concepção inicial era a de que trechos reais escritos ou proferidos por grandes personalidades da história fossem “comentados” numa simulação de página de internet. Para cada post de um Shakespeare, por exemplo, colocaria um ou vários comentários, todos ao estilo da rede, normalmente deletérios. Seria uma maneira de reagir à internet, cuja “esculhambação” lhe causava desconforto. O humor estaria, então, em ver os comentaristas, por exemplo, nocautearem o rei dos dramaturgos sem a menor cerimônia, em breves linhas de rancor, ignorância e má educação.

A ideia, contudo, evoluiu para outra concepção, na qual a própria celebridade, digamos Shakespeare, comentaria, com algumas de suas palavras e sua típica argúcia, o momento presente. Contribuiu para que o trabalho ecoasse no leitor a concepção gráfica da página, a cargo do artista Bruno Martins, que passou a imaginar um layout diferente para cada personagem enfocado. Tal trabalho visual, contudo, está perdido na edição deste volume sem índice, o que talvez seja uma pena. “Mas o empobrecimento visual permitiu, ao mesmo tempo, que o livro custasse 35, em lugar de 80 reais-”, argumenta Knijnik.

Os textos foram revisados e alterados para esta brochura, especialmente quando seu autor verificou que perderiam atualidade em contexto antigo. No livro de 236 páginas, de escrita mais extensa que a original, há tempo para considerações sérias. Está escrito, por exemplo, em Blog do Medici, Palpiteiro Universal: “Prefiro essa quantidade de gente com voz a opinar sobre tudo e todos do que meia dúzia de especialistas a nos impressionar com seus equívocos”. Ou no Blog do Engels: “Não sei se a intenção de Marx era a de me alienar da autoria do pensamento fundador da doutrina comunista. Se era esse o seu propósito, mais valia que ele o tivesse deixado claro. O fato é que seu nome é o seu único sinônimo. Ninguém usa ‘engelismo’ nem mesmo ‘marxengelismo’ para se referir à concepção materialista e dialética da história. Para isso, consagrou-se o termo ‘marxismo’. Fiquei relegado aos livros de história. Não figuro em bandeiras, flâmulas, camisetas e pôsteres. Enfim, não entrei para a cultura pop. Infelizmente, a ideia do comunismo virou propriedade privada de Marx”.

É como se Knijnik desejasse, de posse dessas atualizações, distanciar-se da função de comentarista dos fatos cotidianos. “Mas eu nunca desejei competir com o cronista”, ele explica. “Não quero vaticinar sobre a cantora Amy Winehouse, quero misturá-la com Balzac. Quero que o Vitor apareça- menos e o personagem, mais.” Na brochura, ele acredita contar com o efeito de uma leitura modificada. “Há muitas possibilidades para o leitor em um livro, como a da pausa. O cara que lê nesse formato vai encarar mais o texto do que o visual da página.” Ele também crê que esta é sua maneira de atrair quem esteve fora da coluna jornalística e que, agora, pode apreciar inteiramente as palavras em destaque.

Knijnik não pode deixar de admitir que sorve, feliz, esse momento de eternidade proporcionado pelo livro. Foi do além o prazer que sentiu algumas semanas atrás, durante um evento literário ao qual se viu especialmente convidado a falar. Ou, melhor dizendo, o prazer que sentiu lhe pareceu diferente. Embora às vezes sinta grande dificuldade em forjar uma boa ideia por semana para sua coluna, ele prefere encará-la sempre. Ao deixar de escrever por um número apenas, ele afirma já sentir “um vazio”. O sucesso dos Blogs, que também se verifica no site www.blogsdoalem.com.br, deve se expandir para outros produtos, como camisetas, vídeos e animações. Todas essas ocorrências o fazem imaginar que em cinco ou dez anos possa se dedicar inteiramente à escrita, não só da coluna ou do blog. E talvez, para sua vida profissional, ele veja esta como a saída certa.

O blogueiro trilhou os caminhos da publicidade quase por acaso, como acontece a muitos dos publicitários bons. Ele pertencia à Casa de Cinema de Porto Alegre, escrevia roteiros, era ator. No começo do VHS, dirigiu vários vídeos que foram comentados e premiados. Mas, ao perceber o tino de seu aluno, um professor o tragou para a publicidade. Knijnik, que hoje trabalha como diretor de criação da Energy, em São Paulo, um dia montou a própria agência na capital gaúcha. E, um dia, ela, que era bem-sucedida, foi deixada para trás.

“Este ofício de encomenda representado pela publicidade é uma escola de escrita e de criação”, ele diz. “Tenho de ser criativo, de apresentar muitas ideias por semana para um cliente. E também ser corajoso para receber críticas, porque meu objetivo é comunicar. Esse exercício me faz encontrar caminhos eficientes de comunicação quando aqueles nos quais comecei se esgotaram. É um movimento contrário ao que ocorre a muitos dos meus amigos artistas, insistentes demais nas mesmas ideias. Por que não mudam? Talvez porque seja preciso saber fazer isso. Ou estar treinado para mudar, o que a publicidade me propicia.”

Ao apresentar o livro, o diretor de redação de CartaCapital, Mino Carta, disse acreditar que as circunstâncias tenham inserido Vitor Knijnik na publicidade, área na qual prevaleceria “o sucesso do senso prático”. Quando apresentou o projeto ao jornalista, que também afirmou ver “a vocação do escritor ou do criador de cinema” em Knijnik, o publicitário passou mal. “Eu disse ao Mino que não era erudito e que, aliás, temia a erudição dele. Principalmente, contei que queria ser levado a sério como humorista. Ele riu e decidiu me publicar.”

É o mesmo Mino quem escreve na apresentação do livro, a ser lançado nacionalmente dia 13 no Bar Brahma de Brasília, dia 17 na Livraria Argumento, Rio, dia 20 no Salve Jorge em São Paulo e dia 24, “internacionalmente”, no Instituto NT de Porto Alegre: “Comédia, drama, tragédia. Há também a farsa e, ainda, o gênero misto, a tragicomédia, forma de combinação mais atroz. E tudo é vida. Lágrimas e riso, sofrimento e alegria, no meio fases mornas, sem infâmia e sem louvor. Deste caldo, às vezes brota o humor, como a vida nasceu da sopa primeva. Vitor Knijnik é portador autêntico do humor, intérprete, arauto”.