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A vítima desprezível

por Orlando Margarido — publicado 27/03/2011 17h00, última modificação 27/03/2011 10h33
Realizador voltado à ação de tom psicológico e à investigação de territórios obscuros da mente, o belga Lucas Belvaux encontrou conteúdo na medida para explorar em "O Sequestro de um Herói", em cartaz

O SEQUESTRO DE UM HERÓI

Lucas Belvaux

Realizador voltado à ação de tom psicológico e à investigação de territórios obscuros da mente, o belga Lucas Belvaux encontrou conteúdo na medida para explorar em O Sequestro de um Herói, em cartaz. Como aponta o título, de indução questionável, temos um sequestro, mas não de um herói na acepção mais comum do termo. A figura no caso é o empresário bilionário francês Stanislas Graff (Yvan Attal), cujo rapto se inspira em fato real ocorrido com o herdeiro do Grupo Bic. A tendência de o espectador se condoer da vítima é podada logo nas cenas iniciais pelo estilo seco e direto de Belvaux.

Stanislas é prepotente, egoísta e sua arrogância se estende à mulher e a ambas as filhas. Torna-se mais maleável apenas em companhia da amante. Como se comportará no cativeiro sob o domínio de seus algozes? Demonstra talvez mais frieza do que se espera, uma capacidade de contenção, mesmo quando lhe exigem uma dolorosa prova para a família de que está vivo. Manipula, como sempre fez.

Esta é por certo a melhor cartada do filme, proposta levada a cabo por Belvaux longe do manual do gênero policial tão desgastado por Hollywood. Onde a tradição americana colocaria um ponto final, talvez feliz, o diretor da ótima trilogia Em Fuga, Um Casal Admirável e Acordo Quebrado, já exibida por aqui, prossegue num estudo de personalidade incômoda. Nosso herói reagirá estranhamente à virada de comportamento que se espera dos que passam por tamanho trauma. As contrariedades de Stanislas serão circunstanciais e ele irá contorná-las com talento maquiavélico, condição de que talvez só o seu cão predileto não se ressinta. – OM