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Brasiliana

A vida por trás da morte

por Willian Vieira — publicado 18/05/2011 15h17, última modificação 20/05/2011 16h07
Como a pequena Cabrália Paulista virou referência nacional na produção de caixões. Foto:

No alto da colina cercada pelo verde do interior paulista, os cabralienses se orgulham do título de capital do caixão. “Aqui, você pega qualquer um, dá um martelo e ele sabe fazer um caixão, uma caixinha ou pelo menos pregar uma alça.” Quem afirma é Jacinto Zanoni Filho, ninguém menos que o prefeito de Cabrália Paulista, cidade onde um décimo dos 4.340 habitantes trabalha com esquifes e são produzidos mais de 5 mil deles ao mês – ainda que os óbitos raramente passem de três. “Temos granja, laranja, eucalipto. Mas o caixão, ninguém bate.”

Zanoni, 47 dos 48 anos vividos aqui, conta que a madeira sempre foi o forte da cidade. “Esta terra”, diz, apontando para as colinas peladas, “era coberta de pínus. Mas as empresas derrubaram tudo”. Foi nos anos 80 que a indústria do caixão começou. No auge, há oito anos, havia oito fábricas. Mas a competição se acirrou e a terceirização se impôs entre as cinco restantes, que hoje – além de jurar de pés juntos que usam material reflorestado – se dividem por especialização. Uma faz tampos. Outra, fundos. A maior delas, a montagem e o acabamento. “Qual é o magrão que faz só alça?”, berra Zanoni para uma mulher na rua. “É o Ronaldo da Alça”, grita ela, seguindo caminho. 

Quem abre o portão é um Ronaldo Macieira contrariado com o apelido e o monopólio que, diz, imperam na cidade. “É um ramo bom para quem faz caixão, mas não para quem faz pedaços, como eu.” Ele produz alças de féretro há 16 anos, cerca de 9 mil por mês. E sorri ao dizer que desenvolveu “tecnologia de ponta” para alças, as removíveis, que não precisam ser quebradas quando a urna não cabe na cova. E Ronaldo é só um entre os tantos orgulhosos fazedores de caixão de Cabrália. 

Foi em 1964 que Benedito Molina pôs as mãos num caixão pela primeira vez. Envernizava, pintava, esmaltava. “Quando meu filho tinha 1 ano, eu deixava ele dormir no caixão enquanto trabalhava.” Tanto que esse virou o métier da família. Aos 31, o filho pinta urnas na mesma fábrica onde a filha é gerente. “O dia que morrer já cai dentro do caixão”, brinca Rodrigo Umbelino, o genro, motorista de caminhão acostumado a conduzir mais de 300 unidades até o Ceará, distribuindo as “famosas” urnas de Cabrália Brasil afora. 

Desde 2000, quando se aposentou, seu Dito faz forros de alumínio na garagem de casa. “Para não escorrerem os líquidos do corpo em caso de acidente é preciso um revestimento”, explica, singelo. Ele faz cem por mês. Às vezes mais, como quando recebeu um telefonema que avisava sobre a queda de um avião em São Paulo. Como as empresas não tinham estoque, seu Dito varou a madrugada a fazer forro para 180 caixões. “Paciência. É um serviço que é a desgraça de uns e a felicidade de outros.”

O contrário pensa Andreia, vendedora de seguros da funerária Novo Mundo, que comercializa o medo da morte rezando para ninguém morrer. “Cabrália é uma cidade longe de tudo, então é preciso um plano parar evitar o desespero na hora.” O que explica que dois terços da população tenha o seguro. Por 20 reais por mês têm-se caixão (feito aqui, claro), castiçais, crisântemos e sala velatória – que, por muito tempo, ficava na casa dela. “Não é estranho morar numa funerária?”, diz, rindo. “Eu tinha medo, dormir com um morto do lado. Só que era prático. Falecia, vinha velar aqui e pronto, eu nem saía. Hoje preciso me deslocar toda vez que alguém morre.”

Sempre que isso acontece, quem lucra é José Roberto Amôr. Dono da JR, maior fábrica de urnas mortuárias da região, o tal “monopolista” descrito por Ronaldo da Alça, ele as entrega “do Oiapoque ao Chuí”, além de Angola e Uruguai. “Uma vez um carregamento para Rondônia tombou. Os caixões foram empilhados na estrada. Não faltou gente se benzendo”, conta. “Hoje tenho 15% do mercado nacional”, orgulha-se o “rei do caixão”.

Amôr diz ter enterrado gente do naipe de Jorge Amado, atender celebridades e produções da Globo. Na novela Passione, diz, Tony Ramos teve a morte simulada numa urna dele. “Nessa Cordel Encantado, o coronel morrerá no meu caixão.” Mas o auge da fama se perdeu por um triz. Era 2004 e Amôr mandou fazer um caixão para entrar para o Guinness. Tinha 1,60 metro de altura, 1,60 de largura, 7,5 de comprimento e 3 toneladas. “Se fosse enterrar, caberiam 30 pessoas.” Mas a ideia era levá-lo em um caminhão descoberto até uma feira em São Paulo, com transmissão ao vivo na televisão. “Mas aí vieram os ataques do PCC e a tevê desistiu.”

Cabrália é uma cidade tão pacata que um dos três taxistas trabalha numa sorveteria e larga às 16 horas para assar espetinhos de gato. É seu Genésio, pois, quem levanta da modorra atávica do sofá para dirigir 200 metros até o único hotel da cidade, uma casa antiga com dez quartos que não vê hóspede há semanas. A supremacia do caixão é tamanha que famílias inteiras já trabalharam na mesma fábrica. Até os bancos da praça têm o nome das empresas. Há ex-fazedores de caixão em todos os órgãos, o que inclui até o coveiro do cemitério, que foi marceneiro numa delas. “Lá, pelo menos o caixão vinha vazio. Aqui vem cheio”, lamenta seu Aparecido de Souza, 57 anos, há mais de 30 carregando nas costas a cruz de lidar com a morte.

Dez passos separam a prefeitura da Câmara. Quando Mauro Leal deixou a cadeira de vereador para ser secretário municipal, só trocou de mesa, como fizera ao deixar o escritório da JR. Outros vereadores dividem o passado fúnebre. Mas são 16h30 e na Câmara só há a faxineira, que naturalmente já trabalhou com esquifes, vaga obtida pelo antigo presidente do órgão, que também labutara no ramo mortuário.

“Comecei tapando furos nos pinus”, diz Natalina de Jesus, benzendo-se. “Depois enchi travesseiro e forrei caixão.” O clima era bom. “No almoço, os meninos cochilavam dentro das urnas de luxo.” Mas o medo a seguia e o joelho doía, então acabou conseguindo uma vaga na Câmara. “Não quero ver caixão nunca mais.” Se depender de Amôr, será por pouco tempo.