Você está aqui: Página Inicial / Cultura / A verdade e a música

Cultura

Festival do Documentário Musical

A verdade e a música

por Orlando Margarido — publicado 30/04/2011 15h05, última modificação 30/04/2011 15h06
No evento em São Paulo, Albert Maysles é esperado para falar de alguns títulos fundadores do estilo baseado na câmera pequena e no cenário das ruas

Com a morte, em março, de Richard Leacock, Albert Maysles permanece como um dos poucos representantes em atividade da escola documental americana que se consagrou chamar de cinema verdade. Era quase um time de ideias e propostas semelhantes esse formado ainda por Robert Drew e D. A. Pennebaker, entre outros que colaboravam entre si, a exemplo do ocorrido com Primárias, documentário renovador de 1960 dirigido por Drew e fotografado por Maysles. Mas foi especialmente com David Maysles, seu irmão e parceiro constante morto em 1987, que o documentarista se notabilizou a partir dos anos 50 em registros de personalidades de seu país e incursões no cenário musical. É em razão da segunda faceta a homenagem que recebe da terceira edição do In-Edit Brasil – Festival internacional do documentário musical.

No evento com programação diversa de mais de 70 filmes, em cinco salas paulistanas, Maysles é esperado para falar de alguns títulos fundadores do estilo direto de cinema, ou seja, baseado na câmera pequena, no cenário das ruas e dedicado ao cotidiano, ao dito real. Foi com esse ideal que registrou a primeira turnê dos Beatles nos Estados Unidos em What’s Happening! The Beatles in the USA, em 1964, e seis anos mais tarde fez o mesmo com os Rolling Stones, em Gimme Shelter. Mas esse com um dado inesperado. No concerto de Altamont, na Califórnia, os Hell’s Angels, então convocados como seguranças, espancaram espectadores e mataram um deles. Não só o rock, no entanto, filmou a dupla Maysles. Também a seara clássica, por exemplo, com o pianista Vladimir Horowitz e sua paixão por Mozart.

Amor à música que também move os dois outros homenageados da mostra, o cineasta espanhol Carlos Saura, e seu notório interesse pelo flamenco, mas também tango e fado, e o carioca Andrucha Waddington, cuja versátil câmera já filmou Gilberto Gil, Maria Bethânia, Arnaldo Antunes e Paralamas do Sucesso. O panorama do In-Edit, aliás, é ótima oportunidade para confirmar a vocação musical do documentário brasileiro. Na seleção competitiva, há seis inéditos em circuito comercial, entre ele Filhos de João ou o Admirável Mundo Novo Baiano, de Henrique Dantas e É Candeia, de Márcia Watzl. Mais 39 títulos completam a representação nas seções paralelas. Entre os filmes do bloco internacional, LENNONYC, sobre John Lennon em Nova York depois do fim dos Beatles, e Who Killed Nancy?, investigação sobre a morte da namorada de Sid Vicious, sugerem uma boa complementação atual ainda possível à tese dos Maysles e seus companheiros.