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A única sessão

por Fábio Fujita — publicado 18/11/2010 10h46, última modificação 02/02/2014 20h17
Documentário de Eduardo Coutinho que nunca mais será exibido expôs o freak show da tevê. Por Fábio Fujita. [Republicação de reportagem de 18/11/2010]
A única sessão

Documentário de Eduardo Coutinho que nunca mais será exibido expôs o freak show da tevê. Por Fábio Fujita. Foto: Mario Miranda

Documentário de Eduardo Coutinho que nunca mais será exibido  expôs o freak show da tevê

A fila diante da sala 1 do Cine Livraria Cultura (ex-Cine Bombril), em São Paulo, estendia-se longamente. Nada incomum: trata-se de outra sessão da Mostra Internacional de Cinema, o mais concorrido evento da cinefilia paulistana, que encerrou a 34ª edição no fim de outubro. Minutos antes do início da exibição, marcada para as 21 horas, o ingresso comprado na bilheteria era revertido pelos organizadores em cortesia ao público – tudo para descaracterizar qualquer sentido comercial da obra. A iniciativa acrescentava novos toques de mistério sobre o que se passaria na sala escura.

A respeito do filme em questão, batizado de Um Dia na Vida, muito pouco se sabia previamente. A única “sinopse” divulgada pela Mostra não ia além de sete palavras: “Material de pesquisa para um filme futuro”. Fotos de divulgação? Nenhuma. Créditos? Apenas um: Eduardo Coutinho – o que, ao menos, justificava a fila na porta do cinema. Do diretor que já nos legou documentários monumentais como Edifício Master e Jogo de Cena menos não se espera.

E Um Dia na Vida é mais um dos acertos de Coutinho. A questão é que o privilégio de assisti-lo só coube mesmo à plateia daquela noite – cerca de 300 espectadores que lotaram a sala. Um Dia na Vida não teve, nem terá, outras sessões públicas – muito menos será lançado em circuito. Por quê? Em um dia aleatório de outubro de 2009, Coutinho gravou conteúdos de diversas emissoras de tevê aberta ao longo de 19 horas seguidas. Uma edição de 91 minutos desse material foi o que o público assistiu em Um Dia na Vida. Desse modo, seria inviável para a produção conseguir os direitos de imagem de tudo o que Coutinho selecionou para mostrar: reportagens sensacionalistas, trechos de novelas, comerciais, pregações evangélicas, programas de televendas, shows comportamentais femininos e afins. “Meu trabalho criativo, aqui, foi zero. É o meu filme mais impessoal”, afirmou Coutinho, no debate pós-sessão, sobre a ideia de se tratar de uma mera colagem de imagens preexistentes, sem uso de narrador ou qualquer forma de intervenção.

Amir Labaki, diretor do festival de documentários É Tudo Verdade, discorda: “Um Dia na Vida existe devido às escolhas do Coutinho. Foi ele quem determinou o que registrar, quando fazer e de que forma organizar o material. Ser ‘um filme só de citações’, como almeja Coutinho, em nada elimina a originalidade da autoria”.

Diante do que se vê, é impossível discordar: a televisão substituiu os antigos circos e suas atrações freaks. No lugar de Monga, a Mulher Gorila, um ex-jurado de Silvio Santos, que na posição de âncora de um programa popularesco de notícias, mostra um vídeo amador em que um casal se desentende e chega às vias de fato. O apresentador, então, “ensina” o espectador a forma correta de como imobilizar a mulher num caso assim, para não precisar surrá-la. É o exemplo acabado do jornalismo de serviço.

O espanto generalizado é tamanho diante das imagens que a sensação é a de que a tevê pasteuriza suas programações estrategicamente no mesmo nível da estupidez. O quadro de um programa feminino mostra uma mulher que passará por um “choque de beleza”. Naturalmente pobre e sem glamour, a moça escolhida é repaginada com novas roupas, novo penteado, tratamento de pele e até dentário – tudo, claro, oferecido por empresas do mercado da estética que patrocinam a atração. O mesmo constrangimento é sentido pelo espectador quando vê o comercial de uma cinta elástica que faz uma gordinha “emagrecer” 10 centímetros na cintura. Já na leitura dos destaques do dia, a apresentadora do noticiário vespertino trafega sem alterar a expressão facial dos apocalípticos tsunamis indonésios para as últimas tendências de uma semana de moda da Europa. Nem um robô faria melhor. “E olha que eu não me preocupei em extrair (do material bruto) o pior do pior”, assegurou Coutinho.

O que interessava  ao diretor era testar numa sala de cinema o impacto de conteú-dos televisivos que muitas vezes passam alheios aos olhos do público, mesmo projetados diariamente no televisor de casa. Para o também cineasta Jorge Furtado, autor, entre outros, do curta-metragem Ilha das Flores, a linguagem audiovisual é a mesma, na tevê ou no cinema. O que diferencia as duas mídias é o alcance da comunicação. Se o cinema ama o silêncio, a televisão, para ele, tende a ser histérica, verborrágica, porque precisa chamar a atenção do espectador a cochilar no sofá ou no jantar com a família. “Esse dia na vida é um dia horrível”, constatou Furtado, entre cômico e trágico. É com essa constatação melancólica que explicita a dimensão da experiência proposta pelo diretor. “Raríssimos filmes brasileiros discutiram nossa tevê com tamanha seriedade. Ele é, desde já, um marco”, completou Labaki.

Cumpra ele ou não a sina de encerrar sua trajetória com uma única exibição pública, o caso de Um Dia na Vida é oportuno para estimular debates a respeito da questão dos direitos autorais e de imagem no País. Coutinho assegurou que poderia até considerar lançar a obra e ignorar as autorizações devidas para o uso das imagens, desde que soubesse de antemão quais seriam as consequências jurídicas. “Se me rendesse, digamos, seis meses de cadeia, eu aceitaria. Ficaria preso tranquilamente.”

Mas, provavelmente, ninguém virá a público defender a liberdade de expressão do artista Coutinho. Também neste caso, é um direito reservado a poucos.