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Cultura

Crônica do Villas

A última carta

por Alberto Villas publicado 14/05/2015 15h58
Sim, foi a última. Datada de 9 de fevereiro de 1980

Pesquisando arquivos, remexendo pastas, revirando baús, descobri aquela que foi talvez a última carta que escrevi. Foi escrita à máquina, num papel de seda amarelo, num sábado de muito frio, o último que passei em Paris, depois de seis longos invernos. 

Foi uma carta endereçada a meu irmão, uma semana antes de pegar o avião da Ibéria rumo a Madri, fazer uma baldeação, e reencontrar a Cidade Maravilhosa, que me esperava de braços abertos. 

Dizia o seguinte, a carta: 

Paulo, estou à beira de deixar pra trás a vida que construí aqui nesses anos todos. O apartamento já está completamente vazio e agora com eco: Brasil sil sil, lá vou eu eu eu. 

Já não ouço mais Nina Hagen, o último disco que comprei na Crocodile. Uma música, talvez a última que ouvi aqui antes de empacotar o som, não me sai da cabeça: “Existirmos/A que será que se destina? 

Os dias são cinzas, um atrás do outro, nenhuma notícia do Brasil, nenhum sinal do sol dourado do meu país. Penso no verão daí, dos seus meninos tomando água de coco na praia de Marataízes ou chupando Eskibon em Guarapari. Quero que eles se juntem aos meus, branquinhos de neve, que andam chamando pepino de combombre, barata de cafard e lixo de poubelle. 

Não me iludo. Vou lutar, resistir pra não cair, mas sei que vou ser obrigado a vestir terno e gravata pra trabalhar naquela cidade maluca que nem conheço. São São Paulo te amo com todo ódio, te  odeio com todo amor.

Estou levando o livro Le Turbot, do Günter Grass, pra ler andando nas nuvens, durante doze horas de voo. E algumas revistas, claro. A Nouvel L’Obs, a Actuel, a Geo e a Le Sauvage. Fico preocupado pensando se vou ter dinheiro ou não para comprar essas revistas que adoro, já que são muito caras por aí, me disseram.

Chegando em Belo Horizonte, vamos morar na casa do Seu Felipe por alguns dias. Depois pego um Cometa rumo a São Paulo, ver a dura poesia concreta de suas esquinas, a deselegância discreta de suas meninas, afinal, preciso aprender depressa a chamar-te de realidade.

Nesses últimos dias, ando sonhando com a Savassi, aquele bairro dos Funcionários que não existe mais. Fico imaginando como ficaram as ruas remodeladas, tudo muito novo e diferente. O Bar Grapette que - fiquei sabendo - já não existe mais. Como não existe também o Armazém Colombo, a padaria de Seu Geraldo, tampouco o Posto Fraternia, onde ganhávamos de brinde, o cafezinho do astronauta.  

Não quero pensar muito nas coisas que estou deixando aqui. Os amigos, poucos mas do peito, as mesinhas minúsculas dos cafés, a simpática garrafinha de Orangina e a da Perrier soltando bolinhas de gás. Sei que vou sentir saudade dos restaurantes marroquinos com seus couscous maravilhosos, da Livraria Autremment dit, essas coisas da minha vida aqui.

A Nouvel L’Obs toda quinta-feira nas bancas, a máquina de chocolate quente da faculdade de Jornalismo, a travessia diária por entre as flores do Jardin du Luxembourg, as crianças brincando com os barquinhos a vela ou comendo algodão doce perto do lago. Vou deixar tudo pra trás.

Não sei, não faço a menor ideia do que vou encontrar aí, depois de tanto tempo. Penso nos inúmeros sobrinhos que não conheço, pai e mãe mais velhos e cansados, a única tia viva, o túmulo da nossa avó.

Leonel Brizola voltou, Fernando Gabeira voltou, Vladimir Palmeira voltou, João Amazonas voltou, Luís Travassos voltou e eu quero participar também dessa festa, ao som da maraca, ao som do bambu.

Quero, sabe o quê? Ouvir na rádio Guarani, a Gal cantando Balancê. 

Quero chegar em BH e tomar um Guarapan, comer uma coxinha e depois um quindim.

Quero mergulhar num quibe frito que só Dona Dora sabe fazer e naquele bife à caçarola que só mãe sabe fazer. Quero ligar a televisão, ver os anúncios e ouvir os apresentadores dos telejornais falando em bom português. Um pouco disso, por enquanto, é o que eu quero.

Quero ir a Santos buscar os baús com as nossas coisas. São nove baús, todos eles enormes e coloridos. Quero ficar ali no porto espiando as gaivotas queridas voando numa boa, o mar quebrando na areia e o movimento dos barcos, porque sei que é impossível levá-los sem temporais.

Abraço pra você, talvez o último daqui. O próximo será ao vivo e em cores. 

Paris, 9 de fevereiro de 1980 (um dia feliz, porque hoje é sábado)

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