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A raiz da força

por Orlando Margarido — publicado 05/11/2010 10h59, última modificação 05/11/2010 11h02
A cineasta francesa Claire Denis filma a noção do pertencer em seu novo longa "MInha terra, África", com Isabelle Huppert como protagonista

O cinema exercitado pela francesa Claire Denis é raramente circunscrito ao território confortável da tradição europeia. Uma visão não delimitada necessariamente pela geografia, a exemplo de 35 Doses de Rum, filme de 2008 fixado num subúrbio da França. A história ultrapassa seu lugar ao exibir um retrato universal e íntimo da relação entre pai e filha, em última instância imigrantes no cotidiano deslocado. Esse sentido de pertencimento ou não evidencia-se agora em Minha Terra, África, em cartaz desde sexta-feira 5. Ele pode não ser coerente ao nome original White Material, mas representa a condição da personagem central e de Denis, criada pela família em países africanos.

Sua protagonista é Maria Vial (Isabelle Huppert), francesa que toca a fazenda de gerações da família dedicada ao cultivo do café num país não nomeado da África. Quando um conflito civil entre rebeldes e governo recrudesce, o negócio desmorona, situação refletida em sua família, no marido que a deixou (Christopher Lambert) e no filho desinteressado em colaborar. Maria nega-se a voltar à França. Obsessiva, ela é o “material branco” em questão no título. Impõe-se como mulher-coragem para manter seu patrimônio, suas raízes e o ritual de vida.

Esse seria o contexto imediato do drama. No mais amplo, a cineasta toca em feridas como o colonialismo. Apesar de ter conhecido na África o eterno conflito racial, Denis buscou a inspiração no primeiro romance de Doris Lessing,  A Canção da Relva. No Festival de Veneza do ano passado, onde o filme foi exibido, ela afirmou:  “Não vejo o filme como uma resposta a uma situação política. A intenção foi um olhar compassivo para os problemas locais, a luta étnica, as crianças-soldados, a noção predadora e de espoliação”.

Tratada como vítima e heroína por Huppert, em grande desempenho, Maria é vista pela atriz como uma líder controladora que tem como fraqueza o desespero em permanecer na terra.

“É legítimo no início, depois uma doença que não a deixa ver com clareza.” A volta à África, que a estimulou em seu primeiro filme, Chocolat (1988), faz Denis se lembrar de ancestrais seus estabelecidos em Belém do Pará, provando uma noção nômade da família.

Mais não quis revelar para um grupo da imprensa brasileira interessado na inesperada relação com o País. Justificou sentir-se policiada, quem sabe por uma herança desagradável dos tempos conflituosos na África.