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A quem interessa tanta pressão?

por Socrates — publicado 26/03/2011 14h28, última modificação 26/03/2011 14h28
A torcida entra na onda de ansiedade da diretoria do Santos e cobra uma definição sobre a renovação de Ganso, como se ele não tivesse o direito de negociar com calma. Por Sócrates

A torcida entra na onda de ansiedade da diretoria do Santos e cobra uma definição sobre a renovação de Ganso, como se ele não tivesse o direito de negociar com calma. Por Sócrates

Há em curso uma bela campanha para desestabilizar qualquer resquício de equilíbrio da principal estrela da nova geração do futebol brasileiro. Eu falo de “Ganso”, o Paulo Henrique, do Santos. Parece que a temporada de trégua estabelecida durante a sua longa recuperação – depois da reconstrução do cruzado anterior – se esvaiu logo que retornou aos campos. Nada em relação ao tempo necessário para a plena recuperação e tudo a ver com a ansiedade da diretoria em antecipar a renovação de contrato do atleta. Sem conseguir convencê-lo com argumentos econômico-financeiros, utilizados também no caso Neymar, resolveram partir para o constrangimento, muito em voga na militância esportiva vigente.

A galera não está percebendo que ele sempre foi muito claro em suas posições, não é facilmente influenciado por quem quer que seja e apenas questiona a forma, o conteúdo e a atitude de quem está lhe propondo (no caso, o Santos) alguma coisa neste momento, com o intuito de prendê-lo por mais tempo. Só que do outro lado da mesa há um indivíduo com convicções e que as defende com o que tem em mãos. Não nos enganemos com nada. Só lembrando uma situação que poderia ter ocorrido caso ele não pudesse mais jogar futebol por causa da lesão: quem estaria insistindo tanto nessa renovação? Certamente, Ganso seria largado às traças e ao abandonado.

E a reação de parte da torcida me fez recordar de episódios que vivi na várzea, ainda garoto ou um pouco mais tarde. É claro que o torcedor nem sempre está consciente das incoerências que proclama aos quatro ventos quando está nos estádios, mas na arquibancada vemos de tudo. O Oscar, por exemplo. É meu amigo desde a época em que jogávamos nos juvenis, onde cansou de dar canseira nos seus marcadores. Há alguns anos, quando vestia a gloriosa camisa do Juventus do Irajá, foi grande vencedor de dezenas de desafios com os vizinhos de bairro. Pois é, hoje ele não é nem de longe aquele ponta atrevido e insinuante que deixava os laterais comendo poeira todos os domingos. Está gordo como uma pipa e mal consegue calçar seus sapatos. Quando o faz, termina o gesto com uma baita de uma taquicardia, que vez por outra o obriga a visitar seu cardiologista. Tudo isso após esse simples e corriqueiro gesto.

Quando tem de dar um pique para não perder a condução, então, é um deus nos acuda: o suor lhe ensopa a camisa e a voz se torna quase inaudível. Certa vez, fui assistir a uma olimpíada entre bairros, pois seu irmão Anselmo, que é metido a velocista, representaria a gloriosa bandeira. Até que estavam indo bem na competição, mas no revezamento, que valia mais que o dobro dos pontos das provas individuais, faltou um atleta. O mano olhou para a lateral da pista e, por falta de outra opção, resolveu chamar o Oscar para substituir o ausente. Metido a besta como ele só, aceitou.

Correu até os vestiários, pegou um short emprestado e apareceu todo orgulhoso. Ele seria o terceiro a entrar já que o melhor de todos – o Guerra, cujo apelido é Coelho – fecharia a prova. Quando foi sua vez de correr, arrumou-se como pôde. Ao receber o bastão, fechou os olhos e se lançou com toda a impulsão de que era capaz. Na curva, percebeu que estava parelho com o adversário mais perigoso. Animou-se. Desordenadamente tentou acelerar ainda mais o passo. Como não conseguia, afobou-se. Sentiu uma tensão na altura do estômago e imediatamente se lembrou do que havia ingerido ou saboreado no desjejum. Não houve jeito de atravessar os 100 metros de distância. Pior é que quase morreu. Até uma ambulância tiveram de chamar. A pressão arterial estava pela hora da morte, literalmente.

Escapou dessa, mas, apesar desse histórico e de outras aventuras semelhantes, ele fez questão de me ligar para esculham-bar o seu jogador preferido. Sim, o Ganso. Só porque a questão citada de início ainda está em aberto. Como se o jogador não pudesse defender seus interesses. Como se o atleta não fosse um cidadão com direitos, principalmente sobre a própria vida e seu futuro. Disse-me até que outro dia foi ao centro de treinamento para achincalhar e exigir uma definição do imbróglio. Ora, vejam! Um sintoma que nos mostra bem o grau de manipulação existente por parte dos meios de comunicação e a falta de reflexão de alguns. Espero que não sejam tantos. É fundamental que estejamos alertas a esse tipo de processo ideológico. Ele é emburrecedor.