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A prostituição no masculino

por Redação Carta Capital — publicado 10/10/2012 16h04, última modificação 10/10/2012 16h04
Uma exposição em Paris mostra os locais onde Marcel Proust vivia o prazer clandestino
Hôtel Marigny

No Hôel Marigny, descrito em livro e exposição, o amigo Le Cuziat organizava sessões de Voyeurismo para Proust

Por Leneide Duarte-Plon, de Paris

A prostituição masculina na Paris do século XIX e dos primeiros anos do século XX era clandestina, mas abundante. Praticada intramuros, em hotéis especialmente previstos para encontros discretos de homens em busca dos chamados garçons de joie (rapazes alegres), a atividade era ilegal, ainda que mais ou menos tolerada. A pederastia, palavra empregada na época para designar o homossexualismo, embora bastante praticada, via-se hipocritamente reprimida. Esses lugares secretos funcionavam como as maisons closes da prostituição feminina.

O escritor francês Marcel Proust (1871-1922), um dos habitués dos garçons de joie, ia buscar nesses hotéis prazeres tidos como inconfessáveis pela boa sociedade que os frequentava. Eventualmente, ele apenas praticava o voyeurismo de um ângulo privilegiado, como inspiração para as cenas de seus romances.

Uma exposição retrata em Paris os famosos hotéis de prazeres entre homens por meio de fotografias, objetos e um livro de arte organizado por Nicole Canet. Para escrever a obra, Nicole reuniu material iconográfico que abrange um século. E fez uma pesquisa detalhada nos arquivos da polícia de Paris com o objetivo de reconstituir a história da prostituição masculina na capital entre 1860 e 1960. O livro tem 376 páginas, 335 ilustrações e uma tiragem de 950 exemplares numerados, todos autografados pela autora. Pode ser adquirido na Amazon ou na própria galeria. O lugar da exposição, perto do Opéra de Paris, é uma galeria de arte erótica intitulada Au Bonheur du Jour. A exposição se chama Hôtels Garnis, Garçons de Joie, Prostitution Masculine: Lieux et Fantasmes à Paris de 1860 a 1960.

Os famosos hotéis a que a exposição se refere são o Hôtel de Madrid, o Hôtel de l’Alma ou o Hôtel Marigny. Seria mera coincidência que tanto na língua de Shakespeare quanto na de Molière os rapazes dados a prazeres com o mesmo sexo sejam chamados de “garotos alegres” (gays, garçons de joie)?

Nicole Canet não esconde a felicidade em falar sobre seu livro, sua galeria e a exposição. “Os rapazes podiam estar apenas em hotéis para homens, mas havia também grupos de quatro ou cinco que faziam uma espécie de encenação, como se tratasse de pequenos sketches para os clientes masculinos dos bordéis de mulheres. E, em alguns casos, o cliente podia escolher entre um rapaz ou uma moça”, ela conta.

Os desenhos e as fotografias antigos da exposição, contudo, tratam apenas da prostituição masculina. Logo na entrada, o maior quadro é um retrato de Marcel Proust, o cliente mais célebre desses hotéis. Em Busca do Tempo Perdido relaciona fatos vividos, histórias ouvidas e cenas espionadas em momentos de voyeurismo no Hôtel Marigny. O que o escritor viveu nesses hotéis-bordéis, também chamados de hôtels de plaisir, possibilitou que estudasse as relações de classe e a vida noturna de Paris-Sodoma. O Hôtel Marigny era um de seus lugares favoritos.

O livro, lançado durante a abertura da exposição, em cartaz até 27 de outubro, conta que Marcel Proust foi muito próximo do dono do hotel, o belo Albert Le Cuziat. Em 1917, quando Le Cuziat resolveu abrir o Hôtel Marigny no número 11 da Rue de l’Arcade, decorou-o com muitos dos móveis que haviam pertencido ao escritor.

Em uma das salas secretas da exposição, ficam as fotos e os desenhos mais explícitos. Nelas, homens fantasiados de padre fazem sexo com jovens vestidos de colegiais. Noutras, dois jovens mancebos com corsetes e meias femininas se entregam a prazeres homossexuais. Dentro de uma cristaleira, alguns objetos eróticos são originários da coleção de Roger Peyrefitte, um conhecido escritor francês que assumia publicamente a homossexualidade.

Em 11 de janeiro de 1918, após receber uma denúncia anônima, a polícia francesa chegou de surpresa ao Marigny e encontrou Marcel Proust com três homens sentados à mesa, sobre a qual havia uma garrafa de champanhe. Os acompanhantes do escritor eram Léon Pernet, soldado de primeira classe do 140° Regimento de Infantaria, André Brouillet, cabo do 408° Regimento de Infantaria, e Albert Le Cuziat, gerente e dono do hotel. No documento da polícia que integra a exposição, Proust é descrito como “rentista”. O rico herdeiro vivia de renda e gostava de soldados.

O livro e a exposição dedicam um bom espaço aos prostitutos militares, que exerciam o métier em locais públicos ou nos hotéis. Havia em muitos homossexuais a fantasia de fazer sexo com homens fardados. Outros, militares homossexuais, ao retornar do front durante a Primeira Guerra Mundial, procuravam os garçons de joie. Alguns utilizavam seus dotes físicos para completar os soldos, quase sempre muito aquém de suas necessidades. “Os soldados podiam ganhar em uma hora o que o Estado lhes pagava em um mês”, conta Nicole Canet.

Segundo ela, os militares tinham boa cotação nos bordéis masculinos. O fato de terem acompanhamento médico permanente era uma garantia para os clientes. “O vigor deles era também muito apreciado. E os riscos sanitários, menores, pois passavam por controle médico bastante rígido. Cada regimento tinha sua enfermaria”, explica a autora.

O livro reproduz textos nos quais os vizinhos denunciam a existência desses lugares então considerados suspeitos. Um documento da polícia indica que adolescentes entre 12 e 14 anos exerciam a prostituição num desses hotéis. A denúncia recebida pela polícia dizia: “Vocês encontrarão um batalhão de menores usados para dar prazer a soldados, que poderiam estar servindo ao país de outra forma”.

O escritor homossexual Edward Prime-Stevenson escreveu, em 1909, no seu livro The Intersexes: “O trabalho do prostituto civil tem de rivalizar com a concorrência dos marinheiros e soldados em todas as cidades. De fato, a maior parte dos clientes prefere os prostitutos militares”. Jean Genet conta em seu Diário de um Ladrão como os prostitutos, exibicionistas e voyeurs usavam o espaço dos banheiros públicos das ruas de Paris para uma intensa atividade homossexual. A autora quis reconstituir com seu trabalho o ambiente que fascinou homens como Proust e Jean Genet, mas também o teórico Roland Barthes e o cineasta Pier Paolo Pasolini.

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