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Cultura

Brasiliana

A princesa e os bois

por Rosane Pavam publicado 12/05/2011 09h28, última modificação 16/05/2011 19h33
Feche os olhos à história e os abra para os vestidos na mostra Os Anos Grace Kelly, Princesa de Mônaco. Por Rosane Pavam, com fotos de Olga Vlahou

A multidão é como boiada, segue em frente após o sinal do tocador. Às 19h45 do dia 4 de maio, 1,2 mil bois metafóricos, homens e mulheres trabalhados segundo a moda, às vezes elegantes, outras apenas vestidos com os sapatos em alta, muito em alta, aguardavam a senha que lhes daria acesso à abertura da mostra Os Anos Grace Kelly, Princesa de Mônaco na Faculdade Armando Álvares Penteado, em Higienópolis. Tanta excitação em tempos recentes, ninguém, pelo menos da organização do evento, jamais vira partir de um público paulistano de exposições. O sinal veio, ao fim, no formato de holofote. Aceso, ele sinalizou que o primeiro boi de saltos deixasse o imenso hall, onde réplicas dos profetas de Congonhas do Campo pareciam sorrir, rumo ao salão.

Pouco a pouco, eles que, é claro, não são bois, antes civilizados seres vindos especialmente para essa exibição de toda a parte do País, muitos de sua capital federal, adentraram o amplo recinto onde está exposta até 10 de julho, em São Paulo, a memorabilia de uma das grandes atrizes do cinema americano, morta prematuramente aos 52 anos em acidente de carro na costa, onde protagonizou Ladrão de Casaca. Naquele momento, consta, ela mostrava-se descontente com a rebeldia de sua acompanhante no carro, a filha Stephanie, e pessoalmente lamentava estar acima do peso, resultado de dietas frustradas.

O público, contudo, desinteressado de todo o aspecto desagradável da história de Grace, sorria muito para as máquinas fotográficas ao redor, íntimo e sedento delas, às vezes em atropelo. Nunca foi tão fácil, diga-se, fotografar. Todos a exercitaram ali, munidos de celulares, diante de colunas, vestidos, bolsas, lenços, chapéus, broches, sapatos e até mesmo de uma releitura gigantesca da estatueta do Oscar, este ganho de fato pela atriz aos 23 anos. Uma tela na entrada da exposição projetava a arte fotográfica do retrato de Philippe Hallsman. Ele clicou Grace Kelly em duplicidade, três anos antes que se aventurasse como princesa de Mônaco e sua vida mudasse para melhor, segundo a tese exclusiva desta exposição planejada pela nobreza Grimaldi.

A alegria do público superava a frustração de jamais estar cara a cara com o príncipe- Albert, vindo para o evento, o filho- loiro de Grace, hoje de poucos cabelos, como o William inglês recém-casado com Kate Middleton. “Albert passou para ver mamã”, como disse alguém do staff. Por 40 minutos, antes de sair pela noite paulistana e de o acesso público ao salão ser permitido, o príncipe compartilhara a atmosfera dos vips com a ministra Ellen Gracie, do Supremo Tribunal Federal, e a ex-primeira-dama Marisa Letícia, entre outros.

O público pareceu suspirar em uníssono ao adentrar o local expositivo. Treinou o contentamento diante de originais e réplicas sem quiçá desconfiar de que a princesa não era a preferida do pai, o atlético disciplinador Jack Kelly, e que se relacionava com homens mais velhos para simbolicamente alcançá-lo, até chegar ao noivo do século, o príncipe Rainier. Os blogs de moda estejam atentos, pois os vestidos parecem ser o foco dessa atração, mas só aqueles que Grace poderia usar ainda magra. Homens e mulheres, no salão Hollywood, pararam magnetizados diante de um nude em tafetá e renda que um antigo noivo, o estilista Oleg Cassini, desenhou para ela.

“Estou em estado de êxtase”, dizia a jovem Mayra Perin, funcionária do Instituto Brasileiro de Estudos Bancários que veio de Brasília  especialmente para a exposição, sem contudo saber que, nela, encontraria tantos modelos incríveis. “Não conheço os filmes da Grace, mas meu marido sim, ele vai me mostrar.” Para isso, Mayra também terá a assistência da advogada Alessandra Alberto. Ela tirou dois dias de suas férias como assessora do Supremo Tribunal de Justiça para acompanhar a amiga neste evento “que faz falta em Brasília” e provocou sorrisos no “ministro”, seu chefe. “Vou te mostrar os filmes, Mayra, o Janela Indiscreta, o Ladrão de Casaca, feito lá mesmo em Mônaco”, garantiu-lhe Alessandra.

As amigas posam como modelos diante de cada belo vestido e glorificam Grace. “Foi a primeira que saiu do mundo de plebeia para o de princesa”, lembra a advogada. Mas talvez ela não tenha sido totalmente feliz em Mônaco. “A vida antes devia ser um inferno. Mesmo sem internet, sem Google, ela já era perseguida pelos paparazzi. Uma princesa nem pode tomar o café da manhã de mau humor, que tem gente olhando! Nem pode ter TPM.” Porém, ela ainda crê que Diana sofreu mais. Para Alessandra, Grace foi revolucionária, já que seu vestido de casamento, ela está certa, tinha originalidade, ao contrário daquele que Kate Middleton usou outro dia. A duquesa a desapontou.  Agora Alessandra sabe que a jovem apenas copiou- Grace.-

Condoídos da prisão monárquica, não parece haver muitos. Tri Pangestuti, mulher do embaixador indonésio Sudaryomo Hartosudarmo, é objeto de muitas fotos de seu marido diante dos vestidos. Ela, que vive em Brasília há sete meses, usa um batik indonésio e adora frequentar ambientes em que um certo luxo fica evidente. Seu país- é uma república. “Mas temos alguns sultões, sabia? Conhece Bali? É uma das 27 mil ilhas indonésias, cada uma tem um jeito de governar. Não falamos uma mesma língua, mas somos unidos”, diz, em inglês.

Um grande evento sem sua grande recepção de nada vale. E é na área de acesso exclusivo aos convidados que se encontram salgadinhos, doces e duas centenas de garrafas do espumante Valduga Brut 2009 procuradas pelos convivas com a expressão “ainda tem?” Naquela área, os pés podem relaxar dos saltos altíssimos, copiados de modelos de Christian Louboutin. “Senta bonita!”, diz uma usuária ao explicar como proceder com eles depois de dez minutos em pé. Mas, meninas, todos os calçados de Grace Kelly eram bem mais baixos.

“Vamos limpar direitinho esta confusão”, diz repentinamente um servidor de Valdugas. “Isto aqui tá parecendo um botequim, precisa tirar a garrafa de cerveja da mesa para conseguir beber.” Em meio a cabelos tão volumosos que poderiam esconder celulares, falsas pérolas aplicadas sobre as blusas e muito senso para o que é justo ao vestir-se, ele está à vontade. Apenas lamenta não dormir direito, às vezes três horas em um fim de semana inteiro, sem poder ler, “só ver um repórter da manhã”. Para ele, este reino de funcionários públicos e advogados convidados não difere de qualquer outro. Seu nome é João Henrique Martins Di Sanctis, tem 31 anos e nem conhece aquele juiz.