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Cultura

Refogado

A primeira vez

por Marcio Alemão publicado 22/09/2012 11h39, última modificação 22/09/2012 11h39
O iniciante nos vinhos deve começar pelos fáceis de gostar, não pelos encorpados

Se você quer saber, eu digo: é bem pouco provável que alguém venha a gostar de vinho se, de cara, o camarada for apresentado aos vinhos encorpadões. Sim, estou falando da turma curiosa, que de tanto ouvir falar e ler sobre o enomundo decidiu provar seus frutos. “Sente o drama desse taninão! É ou não é da pesada?”

É mesmo da pesada e seguramente vai afastar o curioso para todo o sempre do mundo dos vinhos. Tutano seguido de mocotó, dobradinha ou fígado de boi malpassado não é o menu degustação indicado para um vegetariano de toda a vida que, de repente, viu a luz. Pense no inverso. A luz foi bater na cara de um carnívoro de carteirinha e eu insisto em dizer que almeirão cru, jiló, mostarda, agrião ardido, nada disso encantará o iluminado. Arrisco dizer que vão preferir, ambos os novatos, voltar a viver no lado escuro.

Pergunto: é novo o que eu disse? Você consegue ver nessa lenga-lenga alguma sabedoria? Não tente, pois não há. Aparentemente deveríamos estar fartos de saber que as primeiras vezes devem conter uma delicadeza que ultrapasse o nível exigido por todo e qualquer ser vivo em seu dia a dia. As primeiras vezes, a iniciação deve ser vista como um processo. Quem fez ou faz terapia, da boa, consegue identificar esse “processo” com facilidade. Lembrei da canção Meu Menino, de Danilo Caymmi e Ana Terra, que o Milton transformou em obra-prima. Um verso diz assim: Se um dia você for embora,/ vá lentamente como a noite,/ que amanhece sem que a gente saiba exatamente como aconteceu.

Lembrar dos vinhos que são classificados como “fáceis de gostar” é fundamental para que a jornada se mostre promissora. Filé mignon para o novo carnívoro e alface para o new veggie. E, de repente, aos poucos, sem que a gente saiba exatamente como aconteceu, vai acontecer.

Acho que estamos de acordo com o que foi dito até agora, certo? Nada melhor do que ir tomando gosto. Pergunto então: por que seria diferente com a música erudita, com a pintura, com a literatura?

Imagino uma aula de iniciação musical com a criançada tendo de ficar quietinha, ouvindo Luciano Berio para, na sequência, reproduzir em palavras ou com o uso das tintas o que sentiram.

Imagine, não é difícil, uma classe da 7ª série do ensino fundamental lendo Mia Couto. Minha opinião: é um dos escritores mais chatos da língua portuguesa. Enorme é seu valor. Ainda maior é a sensação de aborrecimento e tédio que sua leitura provoca em mim.

Machado de Assis: gênio, gênio, gênio. Empurrado aos jovens recém-egressos de Harry Potter, sem ninguém que os conduza com alegria, destacando trechos em que o velho bruxo, o Machado e não o Dumbledore, fazia sua mágica acontecer, será mais uma viagem rumo a uma tarde de domingo desesperada. E que tal encerrar esse menu degustação com Vestido de Noiva, do Nelson Rodrigues, para as jovens da 8ª série?

Da mesma forma que o curioso por vinho perdeu toda a sua curiosidade ao ser apresentado, de cara, aos taninos potentes,  classes inteiras perderão o interesse pela literatura brasileira, por obras literárias escritas em língua portuguesa.

E jacaré? Quem já provou? Já o fiz algumas vezes. Não deixa uma saudade maluca. Não digo que não consigo viver sem, mas digo que sua carne é muito melhor do que muitos frangos doentes que consumimos achando que estamos “comendo leve”.

Temos uma tendência a querer, sempre, relacionar sabores: é mais parecida com frango ou peixe? Imagine você vivendo em outro continente e ouvindo: “É mais para elefante ou crocodilo?”

Prove. Eu diria que não se parece com peixe nem com frango. Com a rã? Pode ser. Mas quando foi a última vez que você comeu rã? Só para voltar ao tema de largada: rã ou jacaré podem ser as primeiras experiências no mundo das carnes ditas exóticas, pela leveza e por serem fáceis de gostar. Formigas amazonenses? Calma. Isso é só para iniciados na alta arte da altíssima gastronomia premiada e idolatrada desse Brasil varonil.