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Cultura

Carta de Portugal

A praia pequenina

por Eduarda Freitas — publicado 23/08/2010 15h13, última modificação 23/08/2010 15h13
Era um luxo ir à praia entre a pausa da escola e a pele branca, às vezes pálida, tantas vezes razão para ouvir “estás doente?” A praia naquele tempo conseguia ser salgada e doce ao mesmo tempo

Éramos nós e mais muitos. Corríamos pela praia à procura de túneis misteriosos e de barcos fantasmas. Corríamos de manhã quando sol ainda estava escondido e à tarde ficávamos dentro das cabanas com cadeiras em vez de paredes e toalhas altas como o tecto. A praia tinha sabor a férias. Era um luxo entre a pausa da escola e a pele branca, às vezes pálida, tantas vezes razão para ouvir “estás doente?”. A praia naquele tempo sabia mesmo a mar. E tinha a capacidade suprema de ser salgada e doce ao mesmo tempo. A praia era minha. Como éramos nós uns dos outros. Entregues. Presentes. Totais. A areia era tão minha como as unhas das mãos que naqueles dias cresciam muito e o sal que se colava à pele era tão meu como o cabelo escuro que me tapava os olhos. A praia era eu e a minha mãe, quando me ajudava a construir bolinhos com a areia molhada que íamos buscar ao mar. A praia era a minha madrinha de longe, que não era minha madrinha, mas era de longe, e por ser mãe da minha verdadeira madrinha, que era de perto, inventou o parentesco feito de afecto que eu agarrava com a mão pequenina quando íamos ver os bois que puxavam as redes dos barcos, cheias de peixinhos pequeninos. E eu tinha muito medo de me aproximar daquelas bois enormes. E tinha muita pena dos peixinhos que morriam entre as redes com os olhos abertos e os corpos em convulsões de últimos momentos. Mas a mão da minha madrinha de longe era forte e grossa do sal do mar. E eu agarrava-me a ela e ficava forte também ainda que sempre a imaginar que um dia aqueles bois gigantes que puxavam as redes do mar, iam ficar fartos de matar peixinhos e iam fugir pela praia numa corrida em nome da liberdade. A praia sabia a macarrão e feijão com batatas fritas que eu nunca comia na praia porque o almoço era sempre em casa, mas que comia ao jantar, com o cheiro dos eucaliptos à porta e a minha madrinha de longe por perto. A praia naquela altura tinha muitas famílias grandes com muitos filhos e primos que diziam palavrões às vezes, muitas vezes, e que eu tinha pena de ouvir, porque não gostava daquelas palavras que não me pareciam da família das outras que eu gostava. E eu sempre gostei muito de palavras. E as mulheres da praia eram quase todas gordas e muito bronzeadas ou então brancas e muito vermelhas e os homens tinham bigode e alguns pouco cabelo. E às vezes uns e outros levavam cestas de comida e quase sempre um rádio que cantava para todos, e não só para eles, o que me deixava confusa em relação à audição dos peixes e dos bois e dos que diziam asneiras: ouviriam eles o que não tinham pedido para ouvir? Estariam todos a ouvir o mesmo que eu? E tapava e destapava muito rápido os ouvidos com as mãos, para ouvir os sons aos pedaços, ora o mundo de fora, ora o mundo de dentro. E depois deixava que o cabelo me tapasse a cara e via da janela dos meus olhos, o sol a mergulhar no mar.