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A obra que grita

por Rosane Pavam publicado 17/10/2008 15h22, última modificação 16/09/2010 15h23
Frans Krajcberg tem 18 anos e sobe em um trem ao saber que a mãe está morta. Salta nas proximidades da prisão, despista a vigilância alemã e depara com o corpo na cela. A corda está no pescoço da mulher que ele ama e que passou a vida entrando e saindo dos porões nazistas. O jovem tenta tirar a corda, mas logo ouve a agitação dos carcereiros que se aproximam. Arranca o colar que ela tem no pescoço, ornado com o símbolo do Partido Comunista Polonês, guarda-o consigo e foge.

Frans Krajcberg tem 18 anos e sobe em um trem ao saber que a mãe está morta. Salta nas proximidades da prisão, despista a vigilância alemã e depara com o corpo na cela. A corda está no pescoço da mulher que ele ama e que passou a vida entrando e saindo dos porões nazistas. O jovem tenta tirar a corda, mas logo ouve a agitação dos carcereiros que se aproximam. Arranca o colar que ela tem no pescoço, ornado com o símbolo do Partido Comunista Polonês, guarda-o consigo e foge.

Trinta anos depois, Krajcberg está na Floresta Amazônica e vê árvores em chamas. Elas se retorcem. Ele tenta uma maneira de estancar a ardência, mas o fogo prossegue. Antes que o tempo se encarregue de decompor os troncos outrora tão bonitos, ele os recolhe para casa e lá os acumula e refaz, longe dos homens.

Krajcberg é o homem da reconstrução. Não o chamem de artista. Embora tenha estudado arte e convivido com pintores e escultores de extrema importância, em primeiro lugar formou-se segundo os ensinamentos exatos. O que ele faz é engenharia, porque cria florestas imaginárias a partir de troncos queimados, árvores retorcidas e raízes do mangue. Falar de arte, neste contexto, pode sugerir delicada ofensa. “O artista, este super-homem, agrada imagem para os outros. Eu não sou artista”, ele diz em entrevista na qual anuncia a primeira grande exposição a ele dedicada em São Paulo, na Oca do Parque do Ibirapuera, até 14 de dezembro.

Aos 87 anos de idade, ele está doente, mas ainda enfático, digno como em um altar. Fala por mais de 90 minutos e não demonstra arrependimento por coisa alguma que, eventualmente, tenha feito errado. É uma vítima e ponto final, sem saber como foi capaz de agüentar essas décadas bárbaras, que todos parecem, repentinamente, ter esquecido. “O homem detesta o outro homem, e isso foi muito forte no século que passou.”