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Cultura

Cartas de Portugal

A nossa gente

por Eduarda Freitas — publicado 14/09/2010 16h55, última modificação 14/09/2010 16h55
Trás-os-Montes fica no topo de Portugal. Onde se sente a desertificação. Onde os novos ficam velhos. E onde os velhos, às vezes, parecem novos de ingenuidade.

Trás-os-Montes fica no topo de Portugal. Onde se sente a desertificação. Onde os novos ficam velhos. E onde os velhos, às vezes, parecem novos de ingenuidade. Trás-os-Montes tem pouca gente e menos ainda que queira ficar. A tomar conta de quem está, os médicos, muitos, chegam de Espanha. Aqui ao lado. Esta é a conversa que ouvi, assisti, num centro de saúde de uma aldeia pequenina com calor à mistura.

Dr. Jorge. É galego.

O consultório dele é ao lado da sala da terceira idade, no lar.

Dr. Jorge – Agostinho diz à senhora que eu não te deixo comer! Diz!
Agostinho para mim – É verdade! O doutor diz para eu não comer! Mas eu tenho fome!
Dr. Jorge – Ah Agostinho...tu tens boas reservas...de ti não tenho pena! Agora vai e diz ao senhor António que pode entrar.

Agostinho sai. Tem a cara vermelha e redonda.

Dr. Jorge - O Agostinho é um caso engraçado...só aparece aqui quando já está muito mal...eu bem lhe digo para não comer e ele diz-me sempre que tenho razão, que não vai comer...e no fim da consulta, sabe o que faz? Convida-me para almoçar! E eu vou, claro! É ele que não pode comer, não sou eu!

E ri-se. O doutor Jorge tem o cabelo em crista, espetado de gel.

Dr. Jorge – Então António! O que tens?
Sr. António - Senhor doutor Jorge, tenho uma dor nas costas que se me atravessa assim pela frente...
Dr. Jorge – Homem, tens bebido a água que disse?
Sr. António – Água...? Eu não tenho sede, senhor doutor...
Dr. Jorge – Tens que fazer por ela...

A mulher do Sr. António, Amélia, interrompe.

Dona Amélia – Eu bebo, senhor doutor!
Dr. Jorge – Pois, mas não és tu que tens que beber, Amélia. É o teu homem...
Dona Amélia – Ele não bebe água mas faz efeito se for vinho? Também é líquido, senhor doutor. Não desfaz a pedra do rim?
Dr.Jorge – Amélia,Amélia... ele tem que beber...mas água, Amélia! António, percebeste o que eu disse? Bebe chá, bebe água com açúcar, quente ou fria, mas bebe...e agora podes chamar a outra senhora que está lá fora?
Dona Amélia – Senhor doutor, falto eu...
Dr. Jorge – Mas tu não tens consulta, Amélia!
Dona Amélia – Isso é que tenho! O senhor Gaspar esqueceu-se foi de marcar no livrinho! Olhe a minha garganta, senhor doutor!
Dr. Jorge – Abre a boca, mulher!

Entretanto, uma mulher de bengala e bigode abre a porta do consultório. Olha para mim e pergunta:

Mulher de bengala e bigode – Então, vem ou não vem tirar fotografias aos meus amigos que estão a almoçar?!
Eu – Minha senhora...já lhe disse que não...eu estou aqui por causa do senhor doutor Jorge...
Mulher de bengala e bigode – Ai...então não vem?! Eles estão à espera...assim também vou comer. O Dr. Jorge?! Ele é muito bom médico! Um santo!
Dona Amélia – Sabe senhor doutor eu quando aqui venho é porque estou mesmo doente! Não sou como outras...
Dr. Jorge – Abre a boca Amélia e diz aaaaaa....
Mulher de Bengala e Bigode – E quem é que vem para aqui chatear o doutor Jorge?! Ai que porra...
DR. Jorge – Diga aaaaaaa....
Dona Amélia – Ai senhor doutor, então não é verdade que enchem a sala?! Não o largam!!!
Sr. António – Cala-te mulher que estás a dizer asneiras!
Dr. Jorge – Tens que comprar rebuçados sem açúcar Amélia.
Dona Amélia – Sem açúcar?!
Dr. Jorge – Olha as diabetes, Amélia... qual é o remédio que tomas para o coração?
Dona Amélia – Hm...não me lembro do nome...
Sr. António – É o «coracel» ...não te lembras?!

Nesse momento, uma outra velhota que está à espreita na porta, diz:

Velhota que espreita à porta – É o coracel sim senhora, que eu sei!

Dr. Jorge – Amélia, rebuçados sem açúcar!
Dona Amélia – Menina, acredite que quando venho aqui é porque estou doente. Não sou como outras...
Mulher de bengala e bigode – Raios a partam, a mulher...

Depois todos saem. O dr. Jorge leva-os a até a uma outra sala. A das refeições.

Volta para o consultório. Fecha a porta. Sorri:

Dr. Jorge – Percebe porque é que eu gosto de ser médico em Trás-os-Montes?