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A música pela porta de trás

por Pedro Alexandre Sanches — publicado 05/10/2011 17h50, última modificação 07/10/2011 12h16
Cesar Camargo Mariano expõe a infância pobre, a contribuição à "pilantragem" e a luta por um lugar ao sol

“Era um subalterno numa sociedade que, em muitos meios, preservava uma mentalidade escravocrata”, escreve o protagonista da história. Não se trata de um camelô ou operário. “Os músicos, no mundo lá de fora, eram empregados, pagos para divertir os patrões. Assim eu seria tratado se seguisse a carreira profissional.” E ele a seguiu. Falamos de um dos mais respeitados músicos brasileiros em atividade, Cesar Camargo Mariano, que lança o livro de memórias Solo (LeYa, 496 págs., R$ 55). Radicado desde os anos 1980 nos Estados Unidos, ele relata a emoção de um músico de origem pobre, nascido numa pensão na Praça da Sé, em São Paulo, em ocupar o palco do Carnegie Hall ou de receber massagens relaxantes das mãos do violoncelista Yo-Yo Ma, durante um trabalho em dupla.

São etapas mais recentes da trajetória exemplar, tanto quanto discreta, do artista de 68 anos, cujos dotes precoces ao piano o rotularam de menino prodígio. “Tive uma infância cheia de anseios e zero de possibilidades. Isso quase acabou com a minha cabeça”, diz, durante a entrevista a CartaCapital, em São Paulo. O contraste entre a privação e a fartura é uma das molas propulsoras de Solo, de Mariano, da música brasileira. Em muitas passagens, ele despe o glamour da profissão. A vida de um músico, mesmo o mais reconhecido, não raro se aproxima mais da senzala que do mar de rosas. “Sempre foi pesado. É pesado”, diz.

“Momento muito difícil de transpor para o papel foi a montagem e desmontagem de Falso Brilhante”, exemplifica, referindo-se a um dos espetáculos históricos da cantora Elis Regina, com quem ele esteve casado por quase toda a década de 1970, e com quem teve os filhos hoje cantores Pedro Mariano e Maria Rita. “O último dia de gravação de um disco é a morte. Existe a estúpida possibilidade de você nunca mais estar com aquelas pessoas com quem conviveu tão intensamente.” Falso Brilhante (1976), afirma, foi financiado pela venda da casa onde moravam em São Paulo. Elis ocupa cinco dos 31 capítulos de Solo. “É dramático, sofrido, estupidamente gostoso, estupidamente pesado”, afirma, referindo-se não só à escrita, mas à vivência de mais de cinco décadas de profissão.*

*Leia a íntegra da matéria na edição 667 de CartaCapital, nas bancas nesta sexta-feira 7