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A música, o tempo e a resposta

por Alexandre Freitas — publicado 23/09/2010 10h23, última modificação 23/09/2010 10h23
O tempo se faz espaço, e esse espaço é preenchido pelas imagens que a música vai desenhando

“Ao escritor, ao filósofo, pedimos conselho ou opinião. Não admitimos que eles mantenham o mundo em suspenso, queremos que tomem uma posição. Eles não podem declinar da responsabilidade do homem falante. A música, ao contrário, está tão distante do mundo e do que se pode designar, que ela só representa os contornos do Ser, seu fluxo e refluxo, seu crescimento, seus rompimentos, seus turbilhões.”

Ouvia as Arietttes oubliées de Debussy pouco depois de ter lido este trecho no ensaio O Olho e o Espírito, de Merleau-Ponty (Cosac Naify). A cantora era uma gestante de uns sete meses chamada Júlia Hajnóczy, tão bela quanto seu timbre. O regente, Zoltán Kocsis, foi quem adaptou para orquestra a versão original para piano. Não o conhecia muito bem como regente, mas como pianista. Ele é diretor artístico da Filarmônica da Hungria e no concerto de ontem, na ópera de Budapeste, a orquestra era seu piano. Era sua extensão, a materialização de suas escolhas estéticas, de sua maneira de dominar a arte do tempo. Peço desculpas por abordar um concerto de um local distante e, do meu ponto de vista, muito exótico. Pretendo, porém, tecer alguns comentários para além dele e, quem sabe, produzir ressonâncias em um ou outro leitor.

As Ariettes oubliées (pequenas árias esquecidas) foram escritas sobre poemas de Paul Verlaine e, apesar de serem obras de juventude, já revelam um aspecto importante da estética de Debussy. Sua música consegue se afastar de uma dimensão narrativa, onde temas são apresentados, desenvolvidos e repetidos. A continuidade é agradavelmente perturbada, seja pela confusa relação entre fluxo e refluxo, tensão e resolução, seja pela sonoridade das palavras, que dão rumo à música. O tempo se faz espaço, e esse espaço é preenchido pelas imagens que a música vai desenhando.

O concerto continuou com a Sinfonia do Novo Mundo de Dvořák. Nesta parte era o regente que, com a orquestra dominada como o teclado do seu piano, pegava o controle do tempo e manipulava corajosamente andamentos improváveis.

O tempo se estendia, se retraia, virava espaço, virava forma. Assim, a arte ia penetrando inocentemente os meandros onde a ciência não entra. A música, se aproveitando de sua distância do mundo, respondia nossas indagações essenciais. Resposta em forma de música. O mundo em suspenso.

Encontramos na web inúmeras interpretações das canções de Debussy, mas nenhuma com Júlia Hajnóczy. Um belo vídeo de Kocsis é esse do concerto KV488 de Mozart. Foi exibido pela TV Cultura em 1991 nos 200 anos da morte de Mozart. Assista clicando aqui.